Em muitas comunidades do interior, o jeito de cozinhar conta histórias que vão além do sabor. Cada prato carrega lembranças da infância e dos costumes passados de geração em geração. A cultura rural está nos ingredientes, nas receitas e no cuidado em preparar a comida com amor.

Com a mistura de tradição, nasce uma culinária que ajuda a formar a identidade de uma sociedade e de onde viemos. O aroma do feijão no fogão a lenha, do pão assando no forno e do café coado na hora tem o poder de retomar lembranças e contar histórias de quem aprendeu a cozinhar com a avó, com a mãe e com o tempo. É dessa soma de hábitos e afetos que surge a identidade culinária de tantos grupos do interior.

Milho, mandioca, feijão, arroz, carnes, frango caipira, leite e queijo continuam sendo alguns dos ingredientes mais presentes. Para a nutricionista Beatriz Galoro, essa conexão com o campo ultrapassa as barreiras do sabor. “Os ingredientes cultivados localmente são mais frescos, sazonais e com menos agrotóxicos, o que melhora a nutrição e a saúde”, explica.

Segundo ela, as receitas tradicionais da roça costumam ser naturalmente mais saudáveis, pois usam menos produtos industrializados. Beatriz acredita que é possível preservar a tradição sem abrir mão do cuidado com o corpo. “Podemos adaptar as receitas antigas para versões mais saudáveis, sem perder o sabor, nem o valor cultural.

Além disso, incentiva o consumo de alimentos locais, apoia feiras e fortalece a agricultura familiar”, acrescenta. Sabores tradicionais chegam à mesa e ajudam a preservar costumes do interior. Divulgação/Joysse Bevilaqua Rodrigues.

Quem vive essa realidade é a feirante Aline Bonatto, guardiã das receitas da família. Desde pequena, ela aprendeu a cozinhar com a avó e, com o passar dos anos, mantém viva essa herança. “Minha avó me ensinou e faço até hoje.

Tenho três livros de receitas e, desde os oito anos, aprendo com ela. É difícil ver as novas gerações interessadas em continuar, mas tento mostrar que o que vendemos é diferente, tem sabor de aconchego e de casa”, conta Aline. Para ela, a comida é sinônimo de união.

“Mesmo com a correria do dia a dia, é na mesa, nos finais de semana ou nas datas especiais que as famílias se encontram e compartilham receitas cheias de afeto”, diz, com o brilho de quem entende que cozinhar é também um ato de amor. Entre os sabores da feira, Aline Bonatto preserva receitas aprendidas desde a infância. Divulgação/Joysse Bevilaqua Rodrigues.

O sabor do campo à mesa Essa mistura de tradição e emoção também inspira o trabalho do chef de cozinha, dono de um restaurante em Céu Azul (PR), que nasceu com o propósito de resgatar o sabor do campo. “A ideia surgiu do desejo de reunir em um só lugar o sabor da roça com o aconchego da boa comida. Sempre gostei do clima dos restaurantes do interior, onde a comida é farta, simples e deliciosa”, conta o gerente do restaurante, Renato Bozio.

O cardápio é um verdadeiro retrato da culinária colonial: café da manhã, pães caseiros, queijos, salames, churrasco ao ponto e pratos típicos da região. “Desde os ingredientes até o modo de preparo, tudo tem um toque rural”, afirma Deividi Massashi, também gerente do estabelecimento. Ele destaca os produtos locais: “Sempre que possível, compramos de agricultores e famílias daqui.

Os produtos chegam mais frescos, e isso faz toda diferença no sabor”. Um tempero que vem da terra e leva aos pratos o frescor da cultura rural. Divulgação/Joysse Bevilaqua Rodrigues.

Para eles, a gastronomia é uma forma de contar histórias. “Cada prato carrega um pedaço da nossa origem. Quando valorizamos os produtos e receitas locais, estamos valorizando as pessoas e as tradições que nos formam”, reflete Renato.

Entre as barracas de feira, as cozinhas das famílias e os restaurantes que mantêm viva a essência rural, o sabor do campo segue atravessando gerações. O alimento produzido com dedicação, em pequena escala e com toque humano, carrega algo que vai além da nutrição: traz o sabor das lembranças e o sentimento de pertencimento. Nas palavras de Aline, sorrindo atrás de um balcão farto de delícias caseiras: “A comida da roça é diferente.

Tem amor, tem carinho, tem história e, por isso, ela nunca sai do nosso coração”. Texto produzido por Joysse Bevilaqua Rodrigues, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.