Poluição do mar pode favorecer algas tóxicas em Fernando de Noronha Fernando de Noronha registrou 255 casos de ciguatera nos últimos quatro anos, uma intoxicação causada pelo consumo de peixes contaminados por toxinas produzidas por microalgas marinhas. Pesquisadores apontam que fatores como poluição por esgoto e aumento da temperatura da água podem favorecer a proliferação desses organismos (veja vídeo acima). Estudiosos analisaram a água do mar e areia na ilha.

A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) nega poluição. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE Microalgas A professora Silvia Nascimento, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), realiza estudos em Fernando de Noronha desde 2017. A pesquisadora também investiga as microalgas que produzem as toxinas responsáveis pela ciguatera.

“Eu faço parte de um grande projeto de pesquisa. Nós estudamos as microalgas desde 2017 e percebemos que a quantidade desses organismos tem aumentado”, afirmou a pesquisadora. Pesquisadores analisaram água no mar do Boldró Ana Clara Marinho/TV Globo Poluição Silvia Nascimento detalhou a situação de regiões como Boldró, Biboca e Porto de Santo Antônio, onde a Compesa mantém Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs).

“Nas proximidades dos pontos de despejo de esgoto doméstico, como Biboca, Porto e Boldró, encontramos uma redução da diversidade de espécies e um aumento das espécies tóxicas. Provavelmente, os nutrientes do esgoto provocam o aumento dessas microalgas”, declarou a pesquisadora. Segundo Silvia Nascimento, a falta de tratamento adequado do esgoto prejudica o meio ambiente.

“Acredito que não existe tratamento terciário, que é o processo de retirada dos nutrientes dos resíduos do esgoto. Se não retiramos os nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo, eles vão acabar no mar e causar mudanças no ecossistema”, explicou a pesquisadora. Os estudos também indicam que, além das microalgas, há crescimento de macroalgas, que são indicadoras de poluição, e redução da quantidade de corais nessas áreas.

“Tem muita macroalga crescendo por causa do esgoto doméstico. As análises comprovam que essas macroalgas são alimentadas pelos nutrientes do esgoto”, disse a pesquisadora. Ela explicou ainda que o aquecimento da água do mar também favorece o crescimento das magroalgas.

Análises A pesquisadora Thayná Mello também analisou amostras de água do mar e de areia em Fernando de Noronha, inclusive nas proximidades das Estações de Tratamento de Esgoto da Compesa. “Eu coloquei amostras de água e de areia em recifes de toda a ilha e na saída das ETEs da Biboca, Boldró e no Rio do Boldró. Nas proximidades da Estação de Tratamento da Biboca, a quantidade de amônia e fosfato foi três vezes maior que o limite previsto na resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)”, declarou.

Thayná Mello também encontrou alterações em outras áreas. “No Boldró, os índices também estavam acima do previsto na legislação. No Rio do Boldró, a quantidade de fósforo estava oito vezes acima do permitido.

Ou seja, havia muito nutriente que favorece o crescimento das macroalgas”, disse. A pesquisadora afirmou que o despejo de esgoto sem tratamento adequado é um problema. “Não é apenas na saída das ETEs.

Em outras áreas, o esgoto sem tratamento também é lançado no meio ambiente e escorre para o mar”, disse Thayná. A pesquisadora disse ainda que os estudos encontraram mais sinais de poluição na Área de Proteção Ambiental (APA), onde fica a zona urbana, do que no Parque Nacional Marinho, que é fiscalizado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Apesar disso, também foram identificados problemas dentro do parque.

“Encontramos problemas em áreas do parque, como Atalaia, que sabemos que recebem esgoto da APA. Há alguns indícios que devem ser de esgoto da Vila do Trinta e, no Sueste, provavelmente da região da Estrada Velha do Sueste”, afirmou.

Macroalgas registradas na Praia do Bode Thayná Mello/Acervo pessoal LEIA TAMBÉM : Surto de intoxicação por peixe é investigado em Fernando de Noronha Fatores que causam ciguatera A pesquisadora Cybelle Longhini, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que também realiza estudos na ilha, afirmou que a ciguatera não está associada a uma única causa.

“Vários fatores ambientais podem atuar de forma combinada e favorecer a proliferação das espécies de microalgas do gênero Gambierdiscus, principais produtoras de ciguatoxinas. Entre esses fatores estão o aumento da temperatura e a poluição costeira, especialmente o enriquecimento das águas por nitrogênio e fósforo. Esses fatores têm sido associados, em outros estudos, ao aumento da quantidade desses organismos”, afirmou.

A pesquisadora informou que os mesmos fatores também favorecem o crescimento das macroalgas, que servem de superfície para as microalgas produtoras das toxinas da ciguatera. Com isso, surgem “novas superfícies” que podem ser ocupadas pelas microalgas, aumentando as possibilidades de crescimento desses organismos. A especialista explicou, no entanto, que não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre os níveis de poluição registrados e a proliferação das microalgas.

Segundo ela, trata-se de uma questão complexa, influenciada por vários fatores. O que diz a Compesa A Compesa informou, em nota, que todo o esgoto coletado em Fernando de Noronha passa por tratamento, de acordo com a legislação ambiental estadual e federal. Segundo a empresa, o controle é permanente e inclui análises laboratoriais periódicas do esgoto tratado.

Os procedimentos seguem os padrões estabelecidos pela Resolução Conama nº 430/2011 e pela legislação estadual. Os relatórios são encaminhados regularmente à Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). A companhia informou ainda que investiu cerca de R$ 21 milhões na implantação de uma nova Estação de Tratamento de Esgoto e em obras de melhoria do sistema.

Segundo a Compesa, as ações ampliaram a capacidade de coleta e tratamento de esgoto na ilha. O g1 procurou o ICMBio e a CPRH para saber se há fiscalização e quais providências são adotadas caso seja confirmada a presença de poluição por esgoto na APA e no Parque Nacional Marinho. Até a última atualização desta reportagem, os órgãos não haviam respondido.

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