Zélia Amador de Deus Ascom/UFPA "Zélia Amador de Deus, uma das principais referências do movimento negro e da luta antirracista na Amazônia, morreu aos 74 anos nesta terça-feira (8), no Pará. Professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), pesquisadora, artista e ativista, ela dedicou décadas à defesa dos direitos da população negra e à construção de políticas de enfrentamento às desigualdades raciais.
Filha de empregada doméstica que deu à luz aos 15 anos, Zélia nasceu em uma fazenda na Ilha do Marajó e foi criada pelos avós em Belém. Estudou em escolas públicas e encontrou na educação um caminho que a levaria da infância de dificuldades ao doutorado e a uma trajetória de destaque na universidade e no movimento negro brasileiro. “Eu me safei pela educação.
Lembro muito bem da minha avó me dizendo: ‘tu és preta, mas não baixa tua cabeça’”, contou Zélia ao g1 em entrevista publicada em 2018. A educação também se tornaria um dos principais campos de sua atuação. Zélia participou da criação de políticas de ações afirmativas e da mobilização pela adoção de cotas para pessoas negras nas universidades públicas.
Em 1980, foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização criada em Belém que se tornou referência na defesa dos direitos da população negra. Da escola pública à universidade Ainda jovem, Zélia já conciliava estudo e trabalho. Tinha facilidade com matemática e dava aulas aos colegas em troca de dinheiro para pagar as passagens de ônibus.
Também foi na infância que percebeu pela primeira vez de forma direta o racismo. Aos 9 ou 10 anos, ofereceu-se para participar de uma apresentação na escola, mas não foi escolhida. “Aos nove, dez anos foi quando senti o que é ser preta.
Eu gosto muito de dançar, então me ofereci para uma apresentação que ia ter na escola. Mas entre as meninas eu não havia sido escolhida e questionei isso com a professora. Ela me disse que iam ser só as ‘meninas mais ajeitadinhas’.
E eu não era desajeitada, entende?”, relembrou. Durante o ensino médio, Zélia já participava de movimentos sociais. Em 1968, esteve em manifestações, passeatas e ocupações, em um período marcado pela ditadura militar no Brasil e pelo fortalecimento do movimento pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos.
Mais tarde, ingressou na UFPA, onde construiu uma trajetória que atravessou quase cinco décadas entre ensino, pesquisa, gestão universitária e formulação de políticas de inclusão. Professora de Artes e doutora em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, Zélia também foi vice-reitora da UFPA e participou da criação do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (GEAM). Em 2019, recebeu o título de professora emérita da universidade.
African Diaspora Technical Committee of Experts Meeting (TCEM) - Reunião do Comitê Técnico de Peritos da Diáspora Africana, livre tradução do inglês - em fevereiro de 2011 em Pretoria, capital da África do Sul. Zélia Amador - Arquivo Pessoal Atuação nacional e internacional A atuação de Zélia ultrapassou as fronteiras do Pará.
Em 2001, integrou a comissão brasileira que participou da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Durban, na África do Sul. Ao g1, ela contou que a mobilização internacional teve desdobramentos na cobrança por políticas públicas no Brasil.
“Éramos um grupo forte, articulado, que retorna ao Brasil para cobrar diversas políticas, entre elas o sistema de cotas nas universidades públicas”, afirmou. Ao longo da carreira, Zélia defendeu que o racismo produzia desigualdades que atravessavam diferentes dimensões da vida da população negra. “A população negra acumula desde então desigualdades em todas as esferas: saúde, educação, perspectiva de vida, absolutamente todas.
O que ocorre é que as elites não se conformam com o combate à desigualdade. A segurança das elites é a desigualdade”, disse ao g1 em 2018. A condição das mulheres negras também ocupou lugar central em sua atuação e produção intelectual.
Para Zélia, as desigualdades de raça, gênero e classe se sobrepunham na experiência dessas mulheres. “Mesmo que a mulher negra supere a questão da classe social, ela continua sendo mulher e continua sendo negra”, afirmou na mesma entrevista. Em agosto de 2026, Zélia foi homenageada com a plantação de um baobá na UFPA UFPA Baobá plantado em homenagem a Zélia Uma das últimas homenagens públicas à professora ocorreu menos de um mês antes de sua morte.
Em 18 de agosto, Zélia participou do plantio de um baobá em sua homenagem no Campus Guamá da UFPA, em Belém. A árvore foi escolhida pelo significado relacionado à ancestralidade, à memória e à transmissão de saberes entre gerações em diferentes culturas africanas. “Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós.
Estou muito emocionada e só tenho a agradecer por esta homenagem”, afirmou durante a cerimônia. Na ocasião, o reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, destacou a participação de Zélia nas transformações ocorridas na universidade ao longo das últimas décadas. “Eu não tenho dúvida da importância da Zélia para esta universidade.
A UFPA é o que é hoje, com todos os seus desafios, também porque houve pessoas que tiveram coragem e determinação para transformá-la”, afirmou. A homenagem sintetizou uma trajetória marcada pela defesa da educação como instrumento de enfrentamento às desigualdades. Em entrevista ao g1 oito anos antes, Zélia havia resumido a importância que atribuía a esse caminho: “Falta empatia.
Se colocar no lugar do outro. Conhecer verdadeiramente a história do país. Entender nossa identidade.
E isso vem através da educação, com o que trabalho pela vida inteira.”
