FMI reduz projeção de crescimento para o Brasil Os investimentos em inteligência artificial (IA) estão ajudando a manter o crescimento da economia mundial em torno de 3%, mas também podem provocar grandes mudanças no mercado de trabalho, na arrecadação de impostos e na educação. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), cerca de 40% dos empregos no mundo poderão ser afetados pela IA. Nas economias avançadas, o baque da IA pode chegar a 60%.
🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1 Segundo Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, a tecnologia poderá aumentar a produtividade em algumas funções, reduzir a importância de outras ou eliminar determinados postos de trabalho. O alerta foi feito nesta segunda-feira (12) durante as reuniões anuais da instituição e do Banco Mundial, em Bangkok, na Tailândia.
Segundo Georgieva, a expansão dos investimentos em IA já aumenta a demanda e os gastos com infraestrutura tecnológica, com efeitos positivos para o crescimento econômico, especialmente na Ásia. Ao mesmo tempo, ela descreveu os impactos da tecnologia sobre o mercado de trabalho como um “tsunami de movimento lento”, que poderá transformar profundamente a maneira como as pessoas trabalham e vivem. “IA, ame-a ou odeie-a.
Ela já está aqui”, afirmou Georgieva. A diretora-geral destacou que os investimentos em IA ajudam a sustentar a economia mundial mesmo diante das dificuldades no fornecimento de energia. Nesta terça-feira (13), o FMI projetou crescimento global de 3,1% para 2026.
Ásia deve se beneficiar dos investimentos em IA De acordo com Georgieva, o aumento dos investimentos em inteligência artificial pode impulsionar o crescimento das economias asiáticas avançadas em 0,5 a 1 ponto percentual. Nas economias emergentes da região, o ganho pode ficar entre 0,2 e 0,8 ponto percentual. Um ponto percentual corresponde a um ponto inteiro em uma taxa expressa em porcentagem.
Assim, um aumento de 0,5 ponto percentual significa, por exemplo, que uma taxa de crescimento de 3% passaria para 3,5%. Os benefícios estão relacionados tanto ao aumento da demanda quanto aos investimentos necessários para construir a infraestrutura de funcionamento da IA. Isso inclui equipamentos e outros recursos tecnológicos utilizados para desenvolver e operar esses sistemas.
Georgieva afirmou que Estados Unidos, China e Índia são os principais países produtores da cadeia de fornecimento da inteligência artificial. No entanto, muitas empresas que fornecem equipamentos para essa infraestrutura estão na Ásia, incluindo a Tailândia, país que sedia as reuniões anuais neste ano. Um estudo preliminar citado por Georgieva identificou que 10% dos empregos nos EUA já exigiam conhecimentos em inteligência artificial.
Enquanto diminuem as vagas em funções rotineiras e repetitivas, cresce a oferta de empregos com salários mais baixos em dois setores: construção civil e centros de processamento de dados, conhecidos como data centers. Esses centros abrigam equipamentos responsáveis por armazenar e processar informações digitais, incluindo aquelas necessárias para o funcionamento de sistemas de IA.
Jovens podem perder oportunidades de primeiro emprego A redução das vagas de entrada no mercado de trabalho preocupa autoridades internacionais, segundo a Reuters. Tharman Shanmugaratnam, presidente de Singapura, afirmou no mesmo evento que os governos precisam enfrentar rapidamente a queda na procura por profissionais recém-formados. “Há um problema específico que precisamos resolver muito em breve: o primeiro degrau no emprego, o primeiro trabalho depois da formatura, está enfrentando uma demanda menor”, disse.
Tradicionalmente, muitos profissionais começam a carreira em funções com tarefas repetitivas e, com a experiência adquirida, avançam para cargos de maior responsabilidade. Com a automação dessas atividades, os jovens podem encontrar mais dificuldades para conseguir o primeiro emprego e construir uma trajetória profissional.
Shanmugaratnam também alertou para o risco de a inteligência artificial ampliar as desigualdades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, tanto no crescimento econômico quanto na criação de empregos. “A IA vai ampliar essa divergência se formos passivos demais diante dela”, afirmou. Segundo ele, os países precisam usar a tecnologia para criar empregos de qualidade, nos quais as pessoas possam aproveitar suas habilidades e continuar progredindo profissionalmente.
Banco Mundial vê oportunidades nos países emergentes O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, apresentou uma avaliação diferente sobre o risco de desaparecimento dos empregos de início de carreira, segundo a Reuters. Ele afirmou não estar convencido de que a inteligência artificial eliminará esses empregos e avaliou que parte significativa das mudanças deverá ocorrer nas economias avançadas, onde estão sendo desenvolvidos grandes modelos de IA.
Nos países emergentes, Banga defendeu o uso de sistemas menores, que exigem menos capacidade de processamento e podem gerar ganhos de produtividade em atividades como agricultura, atendimento em clínicas de saúde e educação. A proposta é aproveitar a tecnologia para melhorar o trabalho de agricultores, profissionais de saúde e professores, sem depender necessariamente de sistemas de IA que exigem grandes estruturas de processamento de dados.
Mudanças também podem afetar impostos e educação Além dos empregos, Georgieva alertou que a inteligência artificial poderá alterar a forma como os governos arrecadam impostos. Isso porque a expansão da tecnologia pode mudar a composição da economia, reduzindo a participação do trabalho humano e aumentando a importância dos investimentos em equipamentos, infraestrutura e tecnologia.
Nesse cenário, os governos terão de avaliar como adaptar seus sistemas tributários, que hoje dependem, em grande parte, dos impostos cobrados sobre a renda e as atividades econômicas das pessoas. A educação também precisará ser reformulada para acompanhar as mudanças nas exigências profissionais. Para Georgieva, os trabalhadores não poderão depender apenas dos conhecimentos adquiridos no início da carreira: será necessário atualizar suas habilidades continuamente para acompanhar a evolução da tecnologia.
A diretora-geral do FMI afirmou que a inteligência artificial já está transformando a rotina profissional. Como exemplo, contou que utiliza um assistente de IA que lhe envia, todas as manhãs, um resumo de 30 segundos com informações sobre sua agenda. Para as autoridades presentes ao encontro, o desafio será aproveitar os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia sem ampliar as desigualdades econômicas nem restringir as oportunidades de trabalho, especialmente para quem está começando a carreira.
A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, fala sobre igualdade de gênero durante as reuniões de outono do FMI e do Banco Mundial em Washington, DC Olivier Douliery/AFP
