Márcio Canella e Marcus Amim são presos pela PF A Polícia Federal (PF) investiga um esquema em que policiais civis compravam postos de combustíveis de forma parcelada, deixavam de pagar as prestações seguintes e ameaçavam os vendedores para permanecer com os estabelecimentos sem quitar as dívidas.
A prática foi relatada por um ex-sócio de um posto em depoimento à PF e integra as apurações da Operação Unha e Carne, que prendeu nesta quinta-feira (15) o deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil) e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Segundo o depoimento à PF, José Carlos Alves de Souza Júnior, conhecido como Júnior ou JR, e Pablo Jukiá Felix Ferreira, o Pablo Russo, eram responsáveis pela administração efetiva de estabelecimentos que, formalmente, apareciam em nome de outras pessoas. O ex-sócio afirmou que também foi ameaçado quando tentou recuperar o dinheiro investido no negócio.
Márcio Canella e Marcus Amim Reprodução A investigação da PF aponta que Canella atuava na articulação política do grupo, enquanto Marcus Amim teria utilizado os cargos que ocupou no Detran-RJ e na Secretaria Estadual de Polícia Civil para garantir proteção institucional às atividades investigadas. Segundo os investigadores, os dois integrariam o núcleo de articulação política e proteção do esquema atribuído aos operadores da rede de postos.
O depoente relatou ainda que, quando cobrava os valores que considerava devidos, passava a sofrer fiscalizações de órgãos fazendários, ambientais e de defesa do consumidor. A oitava fase da Operação Unha e Carne investiga uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis no Grande Rio e na Região dos Lagos para lavar dinheiro. A apuração também envolve suspeitas de corrupção, violação de sigilo funcional e formação de cartel.
LEIA TAMBÉM: Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ, e Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil, são presos pela PF PF acha dinheiro dentro de adega de policial preso em operação que prendeu deputado e ex-chefe da Polícia Civil do RJ Academia e quadra de areia: casas de luxo são alvo de buscas da PF em operação que prendeu deputado e ex-chefe da Polícia Civil Quem é quem na Operação Unha e Carne 8 e o que pesa contra cada um, segundo a PF Calote e ameaças No depoimento, o ex-sócio descreveu o método que, segundo ele, era utilizado pelos dois policiais para assumir o controle de estabelecimentos sem pagar integralmente pelos negócios.
O ex-sócio também relatou ter sido vítima da intimidação. Ao tentar recuperar o dinheiro investido no fundo de comércio, ele afirmou que foi ameaçado pelos dois e desistiu de cobrar a dívida. Segundo o depoimento, ele "foi ameaçado por José Carlos e por Pablo Jukiá, razão pela qual desistiu de prosseguir com a cobrança." Vinculado à empresa após saída O depoente também relatou problemas para formalizar sua saída da sociedade com os policiais.
Segundo ele, embora tenha assinado o documento de alteração contratual para deixar a sociedade, a mudança não foi registrada na Junta Comercial. De acordo com o relato, foi necessário recorrer à Justiça para conseguir se desvincular do negócio. O ex-sócio afirmou que, embora Luisi Correa Pinho e Luana Oliveira figurassem formalmente como integrantes da empresa, a administração efetiva do posto era exercida pelos dois policiais.
Segundo ele, "a administração de fato sempre esteve a cargo de José Carlos Alves de Souza Júnior, alcunha 'Júnior', e de Pablo Jukiá Felix Ferreira, alcunha 'Pablo Russo'." Rede de postos e ocultação de patrimônio A Polícia Federal cruzou os depoimentos com registros societários e documentos apreendidos durante a investigação.
Segundo a apuração, os responsáveis pelo grupo utilizavam outras pessoas, apontadas como "laranjas", para ocultar o controle efetivo de empresas e estabelecimentos, além de contratos que não eram formalizados ou registrados adequadamente. A investigação aponta que José Carlos exercia funções de gestão operacional e financeira do grupo, enquanto Pablo Russo era um dos principais operadores econômicos da rede de postos.
Os investigadores também atribuem a José Carlos a participação na distribuição de recursos entre integrantes do grupo e agentes públicos. Segundo a PF, ele teria utilizado a própria mulher, Luisi Correa Pinho, para ocultar a participação real em empresas. Pablo Russo, por sua vez, é apontado como responsável pelo controle de dezenas de postos que, formalmente, estavam registrados em nome da mulher dele e de uma sócia.
Lavagem de mais de R$ 7,6 bilhões A Operação Unha e Carne investiga uma organização criminosa suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões entre maio de 2020 e março de 2026, segundo relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Seis pessoas foram presas na Operação Unha e Carne 8, da Polícia Federal Reprodução/ GloboNews A PF apura o uso de uma rede de postos de combustíveis como estrutura para lavagem de dinheiro, além de suspeitas de corrupção, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel. Na oitava fase da operação, deflagrada nesta quinta-feira (15), foram expedidos seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão.
A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas, a maioria ligada ao setor de combustíveis. Entre os presos estão Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito com a segunda maior votação do Rio de Janeiro, e Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.
Segundo a investigação, Canella atuava na articulação política do grupo, enquanto Amim teria utilizado os cargos ocupados na cúpula da segurança pública para garantir proteção institucional às atividades investigadas. Canella declarou que confia em Deus e na Justiça e tem certeza de que os fatos serão esclarecidos. A defesa de Amim informou que aguarda acesso à íntegra da decisão judicial para prestar esclarecimentos.
Fases da Operação Unha e Carne Deflagrada em dezembro de 2025, a Operação Unha e Carne começou investigando o vazamento de informações sigilosas de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV). Presos e material apreendido na Operação Unha e Carne são encaminhados à sede da PF no Rio Segundo a PF, os dados teriam sido repassados pelo então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, ao ex-deputado TH Joias, apontado como articulador político da facção.
As apurações também levaram à prisão do desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, suspeito de participar do vazamento. Nas fases seguintes, a operação passou a investigar outras suspeitas envolvendo agentes públicos e grupos criminosos. Em março de 2026, Bacellar foi preso novamente.
Em maio, o deputado estadual Thiago Rangel foi preso sob suspeita de comandar fraudes em contratos da Secretaria Estadual de Educação. Em julho, a PF avançou sobre suspeitas de ligação de políticos com a chamada Máfia do Cigarro e sobre uma rede de postos de combustíveis investigada por lavagem de dinheiro. Na sexta fase, em julho, Márcio Canella e Marcus Amim foram alvos de buscas no inquérito sobre a rede de postos, que teria movimentado R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Canella foi preso em flagrante após agentes encontrarem um fuzil em seu carro, mas foi solto dias depois. Em setembro, a sétima fase levou à prisão do vereador Jorge Canella, por posse irregular de armas de uso restrito. Nesta quinta-feira (15), a oitava fase prendeu novamente Márcio Canella e Marcus Amim, além de quatro policiais civis, e aprofundou a investigação sobre a suposta lavagem de dinheiro, a atuação de agentes públicos e a articulação político-institucional do grupo.
