Beleza ameaçada: conheça as flores pretas do Cerrado que podem desaparecer; veja fotos Em meio às cores do Cerrado, algumas flores parecem ter escolhido o caminho oposto. São tão escuras que, a olho nu, podem parecer pretas. Elas pertencem a um grupo de dez espécies do gênero Stachytarpheta, da família Verbenaceae, com flores que variam entre o preto e o atropurpúreo.

Todas ocorrem no Cerrado e estão presentes em Goiás. A maioria é endêmica da Chapada dos Veadeiros. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram A aparência incomum, porém, é apenas a primeira camada de uma história marcada por diversidade, perguntas ainda sem resposta e preocupação com o futuro.

Das dez espécies, nove estão classificadas em categorias de ameaça. A única exceção é Stachytarpheta puberula, considerada Deficiente de Dados (DD) — o que não significa que esteja fora de perigo, mas que ainda faltam informações para avaliar seu risco de extinção. Antes de entender por que protegê-las é tão urgente, porém, é preciso responder a uma pergunta aparentemente simples: essas flores são realmente pretas?

Stachytarpheta glazioviana CNCFlora / Cedida por Pedro Henrique Cardoso Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: FLAGRA: Harpia é flagrada predando macaco-guariba; "não consegui entender o que que era", diz biólogo VÍDEO: Bióloga encontra família de sauás no quintal e se emociona com filhote PRESERVAÇÃO: 600 espécies de aves e até onças: conheça área de 11 mil hectares protegida por hotel na Amazônia Flores pretas aos nossos olhos O preto, nesse caso, é uma descrição daquilo que enxergamos.

O botânico Pedro Henrique Cardoso, professor doutor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, explica que uma flor aparentemente negra pode revelar outra tonalidade quando analisada de maneira mais precisa. “Uma flor pode parecer preta a olho nu, mas, quando analisada espectralmente, pode apresentar uma assinatura de roxo muito escuro.

Portanto, são flores de coloração extremamente escura, atropurpúrea ou púrpura muito intensa.” Essa aparência pode estar relacionada à composição e à concentração de pigmentos, à estrutura das células e à maneira como a luz é absorvida e refletida pela superfície da flor. As antocianinas estão entre os principais pigmentos associados às tonalidades muito escuras.

É uma característica que torna esse pequeno grupo de Stachytarpheta particularmente chamativo, mesmo dentro de um gênero que reúne grande diversidade de formas. Algumas dessas plantas têm cerca de 30 centímetros de altura. Outras podem alcançar aproximadamente 2,5 metros.

“Eu, particularmente, considero esse grupo de plantas muito bonito e sempre me cativou”, conta Cardoso. Dez espécies e uma forte ligação com a Chapada dos Veadeiros Atualmente, são reconhecidas dez espécies de Stachytarpheta com flores pretas ou atropurpúreas no Cerrado. Todas ocorrem em Goiás e a maioria é endêmica da Chapada dos Veadeiros, região marcada pela elevada diversidade e por espécies de distribuição restrita.

Algumas ultrapassam esses limites. Stachytarpheta salimenae, por exemplo, é encontrada ao longo da região de divisa entre Goiás, Minas Gerais, Bahia e Tocantins. Já Stachytarpheta integrifolia ocorre em Goiás, Tocantins e Mato Grosso.

S. sericea Pedro Henrique Cardoso Cardoso se dedica à taxonomia do gênero desde 2019. Nesse período, descreveu três espécies de flores pretas para a ciência: Stachytarpheta oblongifolia, em 2020, e S.

flavovirescens e S. salimenae, em 2021. Outra integrante do grupo, S.

mollis, foi retirada da sinonímia e voltou a ser reconhecida como uma espécie distinta. O trabalho dos taxonomistas exige muito mais do que encontrar uma planta aparentemente diferente. “Para reconhecer uma espécie como nova para a ciência, não basta encontrar uma planta que pareça diferente.

É necessário compará-la cuidadosamente com as espécies que já foram descritas, analisar suas características morfológicas, verificar os registros existentes em coleções científicas e compreender sua distribuição geográfica.” É um conhecimento construído aos poucos, por meio de observações, comparações, trabalhos de campo e coleções científicas. “Quanto mais espécies estudamos, mais conseguimos reconhecer padrões, identificar diferenças e compreender a diversidade existente.

Por isso, a descoberta e a descrição de uma espécie nova representam o resultado de anos de estudo, comparação e acúmulo de conhecimento científico.” Por que essas flores são tão escuras? Stachytarpheta integrifolia Gláucia Crispim A ciência ainda não tem uma resposta específica para as Stachytarpheta do Cerrado. Estudos realizados com outras plantas ajudam a levantar possibilidades.

Um trabalho publicado em 2021, citado por Cardoso, encontrou maior vantagem de flores escuras em condições de seca quando comparadas a flores claras. A descoberta desperta uma questão interessante quando colocada diante do Cerrado, domínio marcado por uma estação seca bem definida e altas temperaturas.

“Isso levanta uma possibilidade interessante para as Stachytarpheta de flores pretas ou atropurpúreas que ocorrem no Cerrado: a coloração pode estar, ao menos em parte, relacionada às condições ambientais desse domínio fitogeográfico.” Mas o pesquisador faz uma ressalva fundamental: “Ainda são necessários estudos específicos para essas espécies.” Por enquanto, portanto, a possível relação entre a cor e as condições ambientais do Cerrado permanece como uma hipótese a ser investigada.

Beija-flores, borboletas e formigas As perguntas não param na cor. A biologia da polinização dessas espécies ainda é pouco conhecida. Isso não significa, porém, que suas flores passem despercebidas pelos animais.

“Muitas pessoas me perguntam quais são os polinizadores dessas espécies. Em campo, já observei beija-flores e borboletas visitando as flores. No entanto, a biologia da polinização desse grupo ainda é pouco conhecida e merece ser investigada.” Há ainda outros visitantes.

Essas e outras espécies de Stachytarpheta apresentam nectários extraflorais, estruturas que atraem diferentes tipos de formigas. Durante trabalhos de campo, é comum encontrar esses insetos circulando pelas plantas e até entrando nas flores. As observações abrem novas perguntas sobre o papel dos diferentes visitantes na reprodução e na proteção dessas plantas.

São relações que a ciência ainda precisa compreender melhor. S. mollis Pedro Henrique Cardoso Nove das dez estão ameaçadas Se algumas respostas ainda dependem de novas pesquisas, o risco enfrentado por essas plantas já preocupa os pesquisadores.

Em trabalho publicado na revista científica Oryx, realizado em parceria com o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), Cardoso e colaboradores avaliaram o status oficial de conservação das espécies de Stachytarpheta endêmicas do Brasil. Entre as dez espécies de flores pretas ou atropurpúreas, sete estão classificadas como Em Perigo: Stachytarpheta flavovirescens, S. glauca, S.

glazioviana, S. integrifolia, S. mollis, S.

oblongifolia e S. rhomboidalis. Outras duas, S.

salimenae e S. sericea, estão classificadas como Vulneráveis. A décima, S.

puberula, aparece como Deficiente de Dados (DD). A classificação merece atenção: a falta de dados não equivale à ausência de ameaça. Significa que as informações disponíveis ainda são insuficientes para determinar adequadamente seu risco de extinção.

E a história conhecida dessa espécie torna a lacuna ainda mais inquietante. Uma planta sem novas coletas conhecidas desde 1979 Stachytarpheta puberula havia sido coletada pela última vez em 1979 e, desde então, não havia registros conhecidos de novas coletas. Isso, ressalta Cardoso, não significa necessariamente que a espécie tenha desaparecido.

Mostra, no entanto, o quanto ainda se sabe pouco sobre sua situação atual. Recentemente, uma expedição do CNCFlora à Chapada dos Veadeiros encontrou indivíduos com características compatíveis com S. puberula.

Ainda não é possível falar em reencontro. O material passa pelo processo de herborização e deverá ser cuidadosamente examinado após ser incorporado à coleção de herbário. Somente essa análise poderá confirmar se os exemplares realmente pertencem à espécie.

Caso a identificação seja confirmada, os registros poderão ajudar a ampliar o conhecimento sobre sua situação atual. Por enquanto, permanece a expectativa — e a necessidade de novas expedições. Perda de habitat, mineração, agropecuária e fogo As ameaças às flores quase pretas não têm uma única origem.

Segundo Cardoso, perda e degradação de habitat estão entre os principais problemas. A criação de gado, a expansão de áreas agrícolas e monoculturas, a mineração e o aumento da frequência de incêndios criminosos estão entre as pressões citadas pelo pesquisador. Algumas espécies também ocorrem em propriedades particulares, onde abertura de estradas e outras intervenções podem fragmentar populações.

A essas ameaças se soma uma preocupação crescente com as mudanças climáticas. “É a combinação de diferentes pressões que torna essas espécies ameaçadas.” Para algumas populações, a presença dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros oferece uma camada adicional de proteção. Mas nem mesmo isso elimina todos os riscos.

“Estar dentro de uma unidade de conservação não significa que a espécie esteja completamente livre de ameaças.” Uma espécie ameaçada vendida como incenso Em uma expedição pela Chapada dos Veadeiros, uma situação chamou especialmente a atenção de Cardoso. Stachytarpheta glazioviana, espécie de distribuição restrita e classificada como Em Perigo, é coletada por moradores locais e comercializada como incenso em Alto Paraíso de Goiás e áreas do entorno.

“É uma situação que merece atenção, porque estamos falando de uma espécie que já enfrenta os desafios naturais de ter uma distribuição limitada e que ainda sofre pressão direta pela coleta.” É mais uma pressão sobre uma planta cuja conservação já inspira preocupação. E reforça uma questão que atravessa a história das dez espécies: em alguns casos, o tempo necessário para conhecê-las melhor disputa espaço com a velocidade das transformações no ambiente.

O risco de perder antes de conhecer A possibilidade é concreta para espécies ameaçadas de distribuição muito restrita. “Se a destruição do habitat continuar em um ritmo elevado, podemos perder populações ou até espécies antes que tenhamos tempo de compreender completamente suas relações ecológicas, seus polinizadores e sua importância para outras espécies”, alerta Cardoso. O pesquisador lembra que o conhecimento sobre a biodiversidade do Cerrado ainda é incompleto.

Existem áreas pouco amostradas, grupos que receberam menor atenção científica e até exemplares preservados há décadas em herbários que ainda aguardam estudos mais detalhados. Por isso, novas expedições continuam sendo fundamentais. Cardoso acredita que outras Stachytarpheta com a mesma coloração incomum ainda podem estar esperando pela ciência no Cerrado.

“É muito provável que novas espécies de Stachytarpheta com essa coloração tão incomum na natureza ainda estejam à espera de serem descobertas. É como se a natureza ainda guardasse, sob sete chaves, alguns de seus segredos.” Descobrir, entretanto, resolve apenas parte do desafio. Conhecer e proteger ao mesmo tempo Para Cardoso, pesquisa e conservação precisam avançar juntas.

“Por isso, conhecer a biodiversidade e protegê-la precisam acontecer de forma simultânea.” O pesquisador destaca que os ambientes naturais regulam o clima, protegem solos e água, armazenam carbono, fornecem alimentos e matérias-primas e oferecem possibilidades para a medicina. Proteger uma espécie, portanto, não significa preservar apenas um nome em uma lista.

“Quando protegemos a biodiversidade, não estamos protegendo apenas determinadas espécies; estamos protegendo os processos naturais que sustentam a nossa própria vida.” No Cerrado, parte dessa biodiversidade se revela em flores tão intensamente púrpuras que nossos olhos podem enxergá-las como pretas. Algumas têm poucos centímetros. Outras ultrapassam dois metros.

Recebem visitas de beija-flores, borboletas e formigas. Há espécies conhecidas apenas em áreas restritas e uma delas ainda carrega uma lacuna de décadas em seu histórico de coletas. Todas guardam histórias que a ciência ainda tenta compreender.

E, para Cardoso, é justamente aí que mora a urgência: “Conservar é também uma corrida contra o tempo. Muitas vezes, quando o conhecimento chega, a destruição já chegou primeiro.” VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente