Eduardo Riedel, do PP, fala das prioridades para novo mandato em Mato Grosso do Sul Mato Grosso do Sul entra no segundo mandato de Eduardo Riedel (PSDB) diante de um cenário de crescimento econômico acelerado, grandes investimentos e novos projetos de infraestrutura, mas também com desafios que aumentaram junto com a expansão do estado.

Reeleito no primeiro turno com 67,07% dos votos, o equivalente a 914.323 votos, Riedel terá pela frente a tarefa de fazer com que o crescimento chegue aos serviços públicos e à população sem aumentar problemas que já aparecem em diferentes regiões.

✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Entre os principais desafios estão o combate à corrupção dentro da máquina pública, a redução das filas na saúde, a melhoria das rodovias, a falta de trabalhadores qualificados, os impactos da expansão da indústria de celulose e a conclusão de projetos como a Rota da Celulose e a Rota Bioceânica. Na entrevista após a eleição, Riedel afirmou que pretende manter os investimentos e fazer mudanças na estrutura do governo.

Também apontou educação, desenvolvimento econômico e infraestrutura como áreas prioritárias. Veja o que estará no radar do governador nos próximos quatro anos.

LEIA TAMBÉM: Tragédia nas estradas: Rodovias federais de MS já somam ao menos 96 mortes em 2026 MP investiga fila de quase 500 pacientes à espera de exame cardíaco em Campo Grande Crescimento econômico dispara aluguel no interior e leva trabalhadores a morar longe do emprego em MS Justiça afasta diretores, conselheiros, supervisora e nomeia gestor provisório na Santa Casa de Campo Grande Justiça aceita denúncia e torna réus 17 investigados por fraude na venda de livros em MS Fazer o crescimento econômico caber nas cidades Desafios do governo de MS: saúde, estradas, educação, mão de obra, entre outros Reprodução Um dos principais desafios do próximo mandato será administrar o crescimento econômico de Mato Grosso do Sul sem deixar para trás a estrutura das cidades.

O estado vive uma expansão puxada principalmente pelo agronegócio, pela indústria e pelos grandes investimentos no setor de celulose. O ritmo é tão acelerado que já existe dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados. Segundo a Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), o crescimento do estado supera o aumento da população e algumas empresas precisam buscar profissionais em outros estados e até fora do país.

A industrialização também mudou o perfil das vagas. Funções que antes exigiam pouca qualificação passaram a demandar trabalhadores preparados para lidar com novas tecnologias. O desafio de Riedel será fazer com que a formação profissional acompanhe a velocidade dos investimentos.

Mais indústria, mais pressão sobre saúde, moradia e escolas O problema aparece de forma ainda mais evidente nas cidades que receberam grandes fábricas de celulose. Em Ribas do Rio Pardo, por exemplo, a população passou de cerca de 22 mil para 30 mil habitantes em cinco anos, segundo a prefeitura. O número de matrículas na rede de ensino também aumentou.

A cidade recebeu uma fábrica da Suzano com investimento de bilhões de reais e viu a economia municipal crescer rapidamente. O orçamento passou de R$ 116 milhões em 2020 para R$ 340 milhões em 2025. Mas o crescimento também aumentou a procura por moradia, saúde e educação.

A prefeitura estimou que centenas de famílias ainda precisam de moradia e relata aumento na demanda por vagas nas escolas. Em Inocência, outro município impactado pela expansão da indústria de celulose, a população passou de cerca de 8,4 mil para aproximadamente 15 mil habitantes. O hospital público chegou a registrar aumento expressivo no número de atendimentos.

Para o próximo governo, o desafio será garantir que cidades que recebem grandes investimentos tenham infraestrutura suficiente para acompanhar o aumento da população. Rota da Celulose: crescimento da indústria exige estradas preparadas A expansão da indústria de celulose coloca outro problema no radar: a infraestrutura para transportar a produção.

O aumento do número de caminhões exige rodovias em melhores condições, segurança e planejamento para evitar que o crescimento da produção pressione ainda mais uma malha que já apresenta problemas. A chamada Rota da Celulose é justamente um dos principais projetos para melhorar a logística das regiões de expansão do setor. O desafio será acompanhar a execução dos investimentos previstos e garantir que as obras sejam capazes de atender não apenas às empresas, mas também à população que utiliza essas estradas.

A questão é especialmente importante porque Mato Grosso do Sul tem uma economia cada vez mais dependente do transporte de cargas. Na entrevista após a eleição, Riedel afirmou que cerca de 170 milhões de toneladas de cargas foram transportadas pelo estado nos últimos dois anos, principalmente pelas rodovias. Rodovias: entre a necessidade de investir e o número de mortes A situação das estradas também aparece como um desafio de segurança pública.

Nas rodovias federais de Mato Grosso do Sul, pelo menos 96 pessoas morreram em acidentes entre janeiro e 15 de agosto de 2026, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal. O número já era superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 90 mortes. A BR-163 está entre as rodovias mais letais do estado.

Até julho, eram 30 mortes registradas na rodovia. Nas estradas estaduais, dados do Batalhão de Polícia Militar Rodoviária apontaram pelo menos 65 mortes entre janeiro e julho de 2026, além de 372 sinistros. Além da conservação das estradas, o estado terá de lidar com o aumento do fluxo de veículos provocado pelos novos investimentos industriais.

Riedel afirmou que pretende avançar na duplicação de rodovias e citou projetos para trechos da BR-262 e BR-060. O problema é que parte das obras depende do governo federal e das concessionárias. Por isso, a capacidade de articulação política do governador será decisiva.

Rota Bioceânica: promessa de começar a funcionar em 2027 Outro grande desafio será transformar a Rota Bioceânica em uma rota efetivamente operacional. Riedel afirmou que a ponte internacional entre Porto Murtinho e o Paraguai está dentro do cronograma e deve ser concluída ainda em 2026. O principal problema está nos acessos à ponte pelo lado brasileiro.

Segundo o governador, houve atraso nessa etapa e a expectativa é que os recursos sejam retomados após as eleições federais. A previsão apresentada por Riedel é que o acesso seja concluído em 2027. Isso significa que o próximo mandato começará com uma cobrança clara: garantir que a ponte, os acessos e toda a estrutura necessária estejam prontos para que o corredor internacional funcione de fato.

Ferrovia e hidrovia são alternativas às rodovias O próprio governador reconhece que Mato Grosso do Sul não pode depender apenas das estradas. Na entrevista, Riedel defendeu o avanço da ferrovia e afirmou que pretende pressionar o governo federal para que o projeto avance. A hidrovia do Paraguai também está entre as prioridades.

Segundo ele, o transporte pelo rio já aumentou de cerca de 3 milhões ou 4 milhões para 14 milhões de toneladas, mas ainda são necessários investimentos em pontos de dragagem. O desafio será criar alternativas para o transporte de cargas e reduzir a pressão sobre as rodovias. Saúde: crescimento econômico não resolveu filas Na saúde, o desafio é fazer com que a expansão econômica seja acompanhada pela capacidade de atendimento da população.

Um exemplo recente é a fila para o exame Holter 24 horas em Campo Grande. O Ministério Público identificou quase 500 pacientes aguardando pelo procedimento, com tempo médio de espera de aproximadamente um ano. O pedido mais antigo era de setembro de 2024.

O caso levou à abertura de um inquérito civil para investigar a capacidade da rede pública e as medidas necessárias para aumentar a oferta. Embora a fila seja da rede municipal, o problema mostra uma questão maior que o próximo governo estadual terá de enfrentar: a necessidade de integração entre Estado e municípios para reduzir a espera por consultas, exames e cirurgias. A pressão sobre a saúde também aparece em problemas de gestão e controle.

A Justiça determinou o afastamento integral da diretoria corporativa e do conselho de administração da Santa Casa de Campo Grande, além de uma supervisora do hospital. A decisão foi tomada durante a investigação da Operação Antidotum, que apura suspeitas de desvio milionário de recursos da instituição. Cerca de 20 diretores e conselheiros foram afastados.

A Justiça também proibiu os integrantes da diretoria corporativa de serem reconduzidos aos cargos em novas eleições. Para comandar o hospital provisoriamente, foi nomeado Luiz Alberto Hiroki Kanamura, que ficará inicialmente por 180 dias. A investigação é conduzida pelo Gecoc e pelo Gaeco, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Segundo o MPMS, as suspeitas começaram a partir de um contrato para digitalização de prontuários médicos, no valor de R$ 5,4 milhões por três anos. A apuração aponta que cerca de R$ 1,4 milhão teriam sido desviados somente no primeiro ano. O caso também envolve contratos da Operadora Santa Casa Saúde, controlada pela associação.

Segundo o Ministério Público, alguns acordos foram firmados com empresas do mesmo grupo econômico, cujo proprietário teria ligação com integrantes da diretoria do hospital. Riedel citou na entrevista a continuidade dos investimentos em saúde, mas também afirmou que será necessário revisar a estrutura administrativa e buscar maior eficiência nos gastos.

Corrupção: controle será um dos desafios do novo mandato As operações policiais e investigações que atingiram órgãos públicos e instituições que prestam serviços à população colocam outro desafio no radar do próximo mandato: fortalecer os mecanismos de controle e fiscalização.

Em uma entrevista após a eleição, Riedel afirmou que não vai tolerar corrupção e disse que pretende reforçar estruturas como a Controladoria-Geral, as corregedorias das forças de segurança e a atuação conjunta com o Ministério Público e o Gaeco. O caso da Santa Casa acrescenta uma dimensão importante a esse debate.

Embora o hospital tenha gestão própria e o caso esteja sendo investigado pelo Ministério Público, a instituição é uma das principais referências de atendimento de saúde para a população de Mato Grosso do Sul. A crise de gestão, portanto, também coloca em discussão como garantir controle, transparência e continuidade dos serviços prestados. No caso investigado pela Operação Antidotum, a Justiça afastou a diretoria corporativa e o conselho de administração da instituição e nomeou um gestor provisório.

A investigação aponta suspeitas de desvios em contratos, mas as acusações ainda serão apuradas pela Justiça. Em outro caso, a Operação Gutenberg, do Gaeco, investigou um esquema suspeito de fraudes em contratos públicos e corrupção. Segundo o Ministério Público, a investigação apontou mais de R$ 27 milhões recebidos dos cofres públicos por uma organização criminosa.

O esquema teria envolvido servidores corrompidos para direcionar compras de livros e, segundo a investigação, até condicionar exames, cirurgias e vagas em hospitais à aquisição dos materiais. O caso colocou sob pressão mecanismos de controle de contratos e de fiscalização dos servidores públicos. O desafio será transformar esse discurso em mecanismos cada vez mais eficientes de prevenção, fiscalização e punição.

Contas públicas terão de acompanhar os investimentos Outro equilíbrio que Riedel terá de buscar é entre investimento e controle de gastos. O governador afirmou que Mato Grosso do Sul passa por um período de contingenciamento por causa da queda de receitas e citou também mudanças na arrecadação relacionada ao gás. Ao mesmo tempo, garantiu que o estado tem capacidade financeira para continuar investindo.

A questão será ainda mais importante diante da quantidade de obras e projetos previstos para os próximos anos. Rodovias, ferrovia, hidrovia, Rota Bioceânica, saúde, educação e políticas sociais exigem recursos. O governo terá de escolher prioridades e encontrar espaço no orçamento para manter os investimentos sem comprometer as contas públicas.

Educação terá que responder à falta de mão de obra Riedel apontou a educação como uma das principais prioridades do segundo mandato. A meta é ampliar o ensino em tempo integral e a formação profissional. O desafio, porém, é maior do que aumentar o número de vagas.

Com a industrialização acelerada, o mercado passou a exigir profissionais com novas habilidades. A falta de trabalhadores qualificados já é apontada como um dos obstáculos para empresas que chegam ao estado. A formação dos estudantes terá, portanto, de acompanhar a transformação da economia.

O desafio de fazer o crescimento chegar à população O segundo mandato de Riedel começa, assim, com uma contradição: Mato Grosso do Sul cresce, atrai grandes investimentos e amplia sua produção, mas esse avanço também aumenta a pressão sobre serviços públicos e infraestrutura. A expansão da indústria cria empregos, mas aumenta a procura por trabalhadores qualificados. A chegada de novos moradores movimenta a economia, mas pressiona escolas, hospitais e a oferta de moradia.

O aumento da produção gera riqueza, mas também coloca mais caminhões nas estradas. E grandes obras prometem transformar a logística, mas dependem de articulação com o governo federal e de execução dentro dos prazos. A partir de janeiro, Riedel terá quatro anos para enfrentar essa conta.

O desafio será fazer com que o crescimento econômico deixe de ser apenas um indicador e se transforme em melhoria concreta na vida da população. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: