Gigantes do mar: peixes-lua são registrados em Ilhabela, no litoral de São Paulo Um encontro pouco comum surpreendeu pesquisadores durante uma saída de campo no litoral de Ilhabela (SP). Dois peixes-lua (Mola mola), espécie conhecida pelo corpo achatado e pelas grandes dimensões, foram registrados enquanto a equipe do Projeto Mantas de Ilhabela (@mantasdeilhabela) realizava atividades de pesquisa com raias-manta. As imagens foram feitas pelo coordenador-geral do projeto, Rafael Mesquita (@rafa.mesquita).
Segundo Guilherme Kodja, fundador do Projeto Mantas de Ilhabela, encontros com a espécie na região não são inéditos, mas estão longe de fazer parte da rotina. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram “É bastante incomum. Existem alguns registros.
Eu mesmo tenho um registro de 14 anos atrás, dois registros, um outro registro um pouquinho antes da pandemia e agora essa pequena agregação, que eles ficaram ali na mesma região por mais ou menos uma semana”, explica. Peixes-lua gigantes permanecem por dias em região de Ilhabela Rafael Mesquita / Projeto Mantas de Ilhabela Pelas imagens, a equipe estima que os animais observados já fossem adultos em fase inicial.
Precisar o tamanho apenas pelo vídeo é difícil, mas Guilherme acredita que os peixes tinham mais de 1,80 metro de diâmetro e poderiam chegar a cerca de 2 a 2,5 metros. “São animais grandes. Pelas características, sim, é o Mola mola, que é o que a gente tem aqui na região quando aparece”, afirma.
Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ASSISTA AO TG: Serra do Japi abriga um dos menores vertebrados do mundo; conheça o sapo-pingo-de-ouro CURIOSIDADE: Babosa tem flor comestível? Saiba a diferença entre a flor e a parte tóxica da planta VERMELHAS, LARANJAS E ROSAS: Guia digital gratuito revela as espécies de eritrinas que ocorrem no Brasil Um gigante de aparência inconfundível O tamanho impressiona, mas talvez seja o formato do peixe-lua que torne um encontro com a espécie tão difícil de esquecer.
O Mola mola está entre os maiores e mais pesados peixes ósseos do planeta. Indivíduos podem alcançar cerca de três metros de comprimento e ultrapassar duas toneladas. O corpo é alto, achatado lateralmente e parece terminar abruptamente, sem a cauda convencional encontrada na maioria dos peixes.
No lugar dela há uma estrutura rígida semelhante a um leme, chamada clavus. Um gigante à flor d’água: peixes-lua são vistos no litoral de Ilhabela Rafael Mesquita / Projeto Mantas de Ilhabela Apesar da aparência desajeitada, estudos realizados nas últimas décadas ajudaram a derrubar a antiga imagem de que o peixe-lua seria apenas um gigante lento à deriva. Os animais percorrem grandes distâncias tanto horizontalmente quanto pela coluna d'água e realizam mergulhos profundos.
A alimentação inclui organismos gelatinosos, como águas-vivas, além de pequenos peixes, crustáceos, lulas e outros animais encontrados na coluna d'água. E é justamente a movimentação das águas e do alimento que pode ajudar a explicar encontros como o registrado no litoral paulista. Águas frias podem favorecer encontros De acordo com Guilherme, a chegada de águas mais frias e profundas pode provocar mudanças importantes no ambiente.
Com elas, nutrientes alcançam regiões mais superficiais e favorecem a produção de fitoplâncton e zooplâncton, movimentando diferentes níveis da cadeia alimentar. Os peixes-lua podem acompanhar essas condições em busca de alimento. “Esses animais são animais que acompanham uma água mais fria.
Como a gente não tem tanta água realmente fria se aproximando, muitas vezes esses encontros incomuns acabam acontecendo porque eles acabam vindo, da mesma forma incomum, atrás desse alimento, seguindo essas correntes de águas mais frias”, explica Guilherme. Ele lembra que também existem registros esporádicos em outros pontos do litoral paulista, como a Laje de Santos. “Uma vez eu mesmo fiz um registro de três animais juvenis juntos numa mesma data e mais ou menos nessa época do ano”, recorda.
A relação com a temperatura também aparece em um dos comportamentos mais curiosos da espécie. Depois de mergulhar em águas profundas e frias em busca de alimento, o peixe-lua pode retornar à superfície e permanecer em águas mais quentes para recuperar a temperatura corporal. É uma cena que pode dar a impressão de que há algo errado com o animal.
Muitas vezes, não há. “Ele está na natureza, está bem, está ali pegando literalmente um sol. Geralmente ele fica até virado, pegando ali, esquentando, ajustando a temperatura”, explica Guilherme.
Com mais de 1,8 metro, peixes-lua são registrados em Ilhabela Rafael Mesquita / Projeto Mantas de Ilhabela No caso dos indivíduos observados em Ilhabela, as imagens também não indicavam problemas. “Aparentemente, pelas condições de saúde, eles estavam muito bem”, afirma. Ver de perto não significa chegar perto Apesar do tamanho, o peixe-lua não representa perigo para quem está no mar.
Segundo Guilherme, a tendência é que o animal se afaste diante de uma aproximação, embora alguns indivíduos possam demonstrar curiosidade. Isso não significa, porém, que um encontro seja um convite para tocá-lo ou nadar em sua direção. Para o pesquisador, a melhor experiência é justamente aquela em que o animal pode continuar fazendo aquilo que fazia antes da presença humana.
“Se ele está ali, é porque ele precisa estar ali. Então a gente toma uma distância boa, curte, olha que experiência maravilhosa, aprende a respeitar essa distância e segue a vida”, orienta. A recomendação também protege quem observa.
A equipe do Projeto Mantas de Ilhabela entra na água preparada para realizar registros científicos de grandes animais marinhos, como raias-manta e tubarões-baleia, e conhece os procedimentos necessários. “A gente sabe o procedimento, está acostumado, não se assusta. [...] Outras pessoas, não recomendo aproximação, até em respeito ao próprio comportamento natural do animal”, afirma Guilherme.
Um gigante vulnerável na superfície Peixes-lua de até 2,5 metros chamam atenção em Ilhabela Rafael Mesquita / Projeto Mantas de Ilhabela O mesmo comportamento que permite cenas tão bonitas também deixa o peixe-lua exposto. Por passar períodos muito próximo da superfície, o animal pode encontrar redes de pesca e embarcações em seu caminho. Segundo Guilherme, esses estão entre os principais riscos para a espécie em regiões com intensa atividade humana.
“Os dois principais riscos são as redes de pesca de espera e o atropelamento por embarcações”, explica. Diferentemente de uma baleia, que pode denunciar sua presença na superfície pelo borrifo, o peixe-lua pode permanecer praticamente despercebido por quem conduz uma embarcação. “Essa proximidade com a superfície traz realmente um risco bastante grande.
A principal ameaça são as redes de espera e a segunda, numa região mais movimentada por embarcações comerciais, de turismo ou privadas, é o atropelamento”, completa. Em Ilhabela, porém, os dois gigantes seguiram seu caminho. Por cerca de uma semana, permaneceram naquela região do litoral paulista — uma presença incomum, mas não inédita.
Para quem teve a oportunidade de observá-los, ficou um daqueles encontros que o mar oferece sem aviso. E que talvez sejam ainda mais especiais justamente porque não precisam de aproximação, toque ou interferência para serem vividos: basta manter distância e olhar. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente
