Projeto de Votorantim transforma ancestralidade e referências periféricas em coleção Uma coleção de roupas criada dentro do Assentamento Rosa Luxemburgo, em Votorantim (SP), busca transformar referências da ancestralidade indígena e negra, da cultura periférica e da história da região em peças de moda. O resultado é apresentado ao público neste sábado (10), durante a Mostra Cultural do Terra.

O projeto “Terra Rasgada – Moda Ancestral” foi idealizado pela designer de moda e produtora cultural Isabela Couto Espíndola e desenvolvido em parceria com moradores da comunidade e o coletivo Bando Maré de Março, ligado à Escola de Capoeira Angola e Samba de Roda. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp A iniciativa foi construída no próprio território e envolveu oficinas de corte e costura, tingimento natural e expressão corporal.

As roupas foram confeccionadas por costureiras que vivem no assentamento e trabalham no ateliê Rosas e Retalhos. A coleção, chamada “Rio que esquece a nascente, seca”, propõe uma leitura contemporânea sobre a história do território antes, durante e depois da colonização.

‘Nossa ancestralidade não começa nos tropeiros’ Projeto de Votorantim transforma ancestralidade e referências periféricas em coleção de moda Divulgação Ao g1, Isabela Espíndola revelou que a ideia do projeto surgiu durante encontros semanais na escola de capoeira. Ela conta que os professores, que já atuavam com cultura, apresentaram a possibilidade de participar de um edital do Programa de Ação Cultural (ProAC). A escolha pelo assentamento ocorreu também pela relação que a designer já tinha com o local.

“Ele [o projeto] foi pensado dentro desse território, porque lá é o lugar onde a escola está e onde frequento também. Além disso, acredito que primeiro olhamos para os territórios que estão ao nosso redor”, explica. Para construir a coleção, o projeto buscou referências relacionadas aos povos indígenas que, segundo Isabela, já faziam parte da história da região antes da formação das cidades.

“Nossa ancestralidade não começa nos tropeiros. Ela é muito mais antiga. Antes deles, este território já era ocupado por povos indígenas, que construíram suas próprias histórias, culturas e relações com o território e com o Rio Sorocaba”, afirma.

História contada pelas roupas Projeto de Votorantim transforma ancestralidade e referências periféricas em coleção de moda Reprodução/Kayan Viana A coleção foi dividida em três momentos para o desfile: pré-colonização, colonização e pós-colonização. Elementos relacionados a esses períodos aparecem nas peças e também na composição dos looks. As miçangas utilizadas nas roupas fazem referência, segundo a idealizadora, à tradição indígena de criação de adornos corporais.

A trama das peças remete às redes de pesca e ao Rio Sorocaba, enquanto os cortes amplos representam o movimento da água. Os desenhos presentes nas roupas também dialogam com símbolos de religiões de matriz africana. Para Isabela, a proposta não era apenas utilizar referências ancestrais como estética.

Por isso, o projeto também buscou contato com pessoas ligadas a essas tradições, incluindo o Centro de Convivência Indígena (CCI) da UFSCar Sorocaba. “Para não reduzirmos apenas à estética, é necessário incluir pessoas que carregam essa ancestralidade”, afirma. Participação local na produção Projeto de Votorantim transforma ancestralidade e referências periféricas em coleção de moda Reprodução/Nathalia Muratt A comunidade participou de diferentes etapas do projeto.

Os moradores estiveram nas oficinas de corte e costura e de tingimento natural e, posteriormente, participaram de uma atividade de expressão corporal voltada para a preparação do desfile. As próprias costureiras do assentamento ficaram responsáveis pela confecção das peças. Além da produção das roupas, moradores também estarão entre os modelos do desfile e participarão da feira de economia criativa que será realizada durante a mostra.

Para idealizadora, a iniciativa também representa uma possibilidade de geração de renda dentro da comunidade. “O Terra Rasgada gerou alguns impactos para a comunidade, remunerando as costureiras de forma justa, os modelos que são moradores do assentamento e também a feira de economia criativa, que é composta majoritariamente pelos moradores da comunidade”, diz. O projeto foi selecionado pelo ProAC Editais, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.

A proposta “Terra Rasgada Moda Ancestral” aparece entre os projetos selecionados na modalidade de Design de Moda. Projeto de Votorantim transforma ancestralidade e referências periféricas em coleção de moda Reprodução/Nathalia Muratt O reaproveitamento de materiais também fez parte da produção da coleção. O algodão cru foi utilizado como base das roupas, os retalhos maiores que sobraram foram aproveitados na produção de itens como decoração, cadernos e bandeiras.

Já os pedaços menores foram destinados à compostagem. A proposta também incluiu atividades de capacitação. Em junho, o projeto promoveu uma oficina gratuita de costura e reparos no próprio Assentamento Rosa Luxemburgo, com foco em técnicas que pudessem ampliar a autonomia e as possibilidades de geração de renda dos participantes.

‘Um território urbano, porém interiorano’ Para Isabela, o próprio assentamento também é uma das principais referências para a identidade visual da coleção. “O assentamento é uma periferia, um lugar cheio de cultura e com uma estética única que é só de lá, um território urbano, porém interiorano e cheio de talentos.” A relação com o território também aparece no próprio nome do projeto. “Terra Rasgada” faz referência à expressão associada ao desenho do Rio Sorocaba e à origem do nome da cidade de Sorocaba.

A proposta é aproximar essa memória de uma estética contemporânea, combinando elementos considerados ancestrais com referências urbanas e futuristas. “Imaginar o futuro a partir dos saberes ancestrais é reconhecer que o que veio antes ainda pode orientar o que está por vir. É valorizar conhecimentos, modos de viver e de criar que foram transmitidos entre gerações para construir um futuro mais consciente, conectado à nossa história e ao nosso território”, afirma Isabela.

Isabela Couto Espíndola, designer de moda e produtora cultural Reprodução/Filipe Lea Plaza Mostra cultural Além do desfile da coleção, a Mostra Cultural do Terra terá feira de artesanato, apresentação de capoeira, roda de conversa sobre território e identidade, shows de Gabrelú e Maria Preta, e também discotecagem. A programação terá uma roda de conversa com representantes dos povos Baniwa, Baré e Dessana.

A mostra começa às 13h deste sábado (10), no Assentamento Rosa Luxemburgo, localizado na Avenida Vitalino Pagliato, nº 1000, em Votorantim. A entrada é gratuita, mas é necessário retirar ingresso antecipadamente. Os organizadores também recebem doações voluntárias de 1 kg de alimento não perecível.

O evento conta com recursos de acessibilidade, como intérprete de Libras, banheiros acessíveis e um espaço sensorial, onde o público poderá tocar nos tecidos e perceber as texturas e os aromas das peças. Projeto de Votorantim transforma ancestralidade e referências periféricas em coleção de moda Divulgação *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM