Cuecas enterradas por voluntários para avaliar a saúde do solo aparecem em diferentes estágios de decomposição após o experimento. Agroscope/Gabriela Braendle O IgNobel 2026, uma tradicional (e bem-humorada) premiação da ciência, foi entregue nesta quinta-feira (3) em Zurique, na Suíça, a dez novos estudos vencedores.

Os trabalhos, por mais inusitados que pareçam, exploram perguntas científicas reais e seguem a proposta do prêmio de reconhecer pesquisas que, segundo os organizadores, primeiro fazem as pessoas rir e depois pensar. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Um dos experimentos premiados neste ano transformou 1.000 cuecas de algodão em uma forma de avaliar a atividade biológica do solo.

Agricultores, jardineiros e outros voluntários enterraram as peças e voltaram para buscá-las cerca de dois meses depois. A ideia era observar quanto do tecido havia sido decomposto por fungos, bactérias e outros organismos presentes no terreno. Os participantes também enviaram amostras de terra e informações sobre a forma como cuidavam das áreas.

Os pesquisadores analisaram quase 900 amostras e compararam esses dados com o estado de decomposição das cuecas. O projeto começou na Suíça, mas acabou se espalhando para mais de 25 países. O trabalho recebeu o prêmio de Ciência do Solo.

📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Na Química, outra pesquisa premiada chamou atenção para uma espécie de barata que produz uma substância nutritiva para alimentar seus filhotes. A Diploptera punctata é vivípara, ou seja, dá origem a filhotes vivos em vez de colocar ovos como ocorre com a maioria das baratas.

Ao analisar cristais de proteína presentes nessa substância, muitas vezes chamada de “leite de barata”, os pesquisadores descobriram que eles concentram cerca de três vezes mais energia do que proteínas do leite de vaca. Até o beijo entrou na lista de temas reconhecidos neste ano. Pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos tentaram criar uma definição científica que pudesse ser aplicada não apenas aos seres humanos, mas também a outros animais.

Agora no g1 Para o grupo, o beijo pode ser entendido como um contato direcionado entre as bocas de dois indivíduos da mesma espécie, com algum movimento dos lábios ou de estruturas equivalentes e sem transferência de alimento. ➡️ A partir desses critérios, os cientistas reuniram registros do comportamento em diferentes espécies e concentraram a análise principalmente nos primatas.

Os resultados indicam que o beijo ocorre entre vários grandes primatas e provavelmente já existia no ancestral comum desse grupo milhões de anos atrás. O estudo também avaliou a possibilidade de que neandertais tenham se beijado, embora os próprios autores ressaltem que ainda existem poucos dados disponíveis sobre o tema. A pesquisa levou o prêmio de Biomecânica.

LEIA TAMBÉM: Por que cientistas acreditam na existência de oceanos em planetas-anões Livro encadernado com pele humana é exibido em feira literária em NY Como baleias podem ensinar cientistas a falar com alienígenas Outro grupo aplicou física e equações matemáticas a um problema bastante cotidiano: os respingos dos mictórios. Os cientistas analisaram como o ângulo em que um jato de líquido atinge uma superfície influencia a quantidade de gotas que voltam para o usuário ou terminam no chão.

Com base nesses resultados, desenvolveram novos formatos de mictório para fazer com que o líquido atingisse a superfície de uma maneira capaz de reduzir os respingos. Nos testes, um dos modelos produziu apenas 1,4% dos respingos observados em um mictório comercial convencional. Segundo os pesquisadores, a mudança poderia melhorar a higiene e ainda diminuir gastos com água, produtos de limpeza e manutenção.

O estudo ganhou o prêmio de Física. O Brasil também aparece entre os vencedores deste ano. Na Biologia, João Miguel Alves-Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques foram premiados por uma pesquisa que tentou entender o que faz uma jararaca decidir picar uma pessoa.

Na categoria Tecnologia, pesquisadores encontraram uma utilidade bastante improvável para uma estrutura do corpo dos mosquitos. A equipe utilizou a probóscide, estrutura fina e alongada usada pelo inseto para perfurar a pele, como um bico microscópico para impressão 3D. O método recebeu o nome de “necroprinting” e aproveita justamente as dimensões extremamente pequenas dessa estrutura natural para depositar materiais com alta precisão.

Exemplos de beijos e outros contatos boca a boca entre animais analisados no estudo. Reprodução/Evolution and Human Behavior Outro estudo premiado investigou algo que muitos pais talvez já tenham percebido: bebês parecem cheirar melhor do que adolescentes. Pesquisadores da Polônia, Alemanha e Suécia analisaram como pais avaliavam o odor dos próprios filhos em diferentes idades.

Os bebês receberam avaliações mais positivas, enquanto os adolescentes foram considerados menos agradáveis nesse quesito. A pesquisa venceu a categoria de Olfato. Na Economia, pesquisadores foram reconhecidos por uma série de experimentos que encontraram uma associação entre pertencer a classes sociais mais altas e uma maior ocorrência de determinados comportamentos considerados antiéticos.

Em um dos testes, participantes tiveram acesso a doces que haviam sido separados para crianças. Segundo os pesquisadores, pessoas de classes sociais mais altas mostraram maior propensão a pegar parte deles. Já o prêmio de Medicina foi concedido postumamente ao japonês Tokuji Unno por um trabalho de 1977 dedicado à aerodinâmica de assoar o nariz.

A pesquisa analisou fisicamente esse processo, e o prêmio foi recebido em nome do cientista por uma colega da Universidade Médica de Asahikawa, no Japão. Por fim, o prêmio da Paz foi para um estudo sobre um lado menos gentil das amizades. Pesquisadores investigaram como as pessoas avaliam o comportamento dos próprios amigos em relação a terceiros e encontraram evidências de que podemos valorizar companheiros que são bons conosco, mas hostis com pessoas de quem não gostamos.

A edição deste ano também marcou uma mudança para o próprio IgNobel. Depois de 35 anos de cerimônias nos Estados Unidos, a premiação foi realizada em Zurique. Os troféus foram entregues por quatro vencedores do Prêmio Nobel: Esther Duflo e Abhijit Banerjee, premiados por estudos sobre pobreza; Michel Mayor, pela descoberta de um exoplaneta; e Tim Hunt, por pesquisas sobre a divisão das células.

Prêmio do IgNobel 2026 tem formato de cogumelo sobre um pé humano, em referência ao tema escolhido para a edição deste ano. Divulgação/IgNobel Veja por categoria os vencedores da 36ª edição: Biomecânica: Matilda Brindle, Catherine Talbot e Stuart West foram premiados por criar uma definição mais precisa do que é um beijo, a partir da comparação desse comportamento em animais como formigas, aves e ursos-polares, além de humanos.

Economia: Paul Piff, Daniel Stancato, Stéphane Côté, Rodolfo Mendoza-Denton e Dacher Keltner receberam o prêmio por reunir evidências de que pessoas de classes sociais mais altas têm maior tendência a adotar determinados comportamentos antiéticos, como pegar doces destinados a crianças.

Química: Sanchari Banerjee e outros dez pesquisadores foram reconhecidos por estudar proteínas produzidas por uma espécie de barata vivípara e mostrar que elas concentram cerca de três vezes mais energia do que proteínas do leite de vaca. Medicina: O prêmio foi concedido, de forma póstuma, ao japonês Tokuji Unno por um estudo sobre a aerodinâmica de assoar o nariz.

Biologia: João Miguel Alves-Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques foram premiados pelo estudo brasileiro que investigou quais fatores aumentam ou diminuem a chance de uma serpente dar uma picada defensiva. Física: Randy Hurd, Zhao Pan, Tadd Truscott e Kaveeshan Thurairajah foram premiados por tentativas teóricas e experimentais de desenvolver um mictório que reduza os respingos.

Tecnologia: Um grupo de pesquisadores da China, Canadá, Estados Unidos e Egito recebeu o prêmio por usar a probóscide (estrutura fina e alongada usada pelo inseto para perfurar a pele) de mosquitos como um bico de alta resolução para impressão 3D, técnica batizada de “necroprinting”.

Olfato: Ilona Croy, Tomasz Frackowiak, Thomas Hummel e Agnieszka Sorokowska foram premiados por um estudo que reuniu evidências de que pais consideram agradável o cheiro de seus bebês, mas não avaliam da mesma forma o odor dos filhos adolescentes. Paz: Jaimie Arona Krems, Rebecka Hahnel-Peeters, Laureon Merrie, Keelah Williams e Daniel Sznycer receberam o prêmio por estudar por que as pessoas podem valorizar amigos que tratam mal aqueles de quem elas próprias não gostam.

Ciência do Solo: Franz Bender, Marcel van der Heijden, Atlant Bieri e Pia Viviani foram premiados por enterrar 1.000 pares idênticos de cuecas em mais de 25 países e desenterrá-los dois meses depois como forma de estudar a saúde do solo.

Destaques das edições anteriores Veja abaixo os estudos premiados em anos anteriores do IgNobel: 2025: pesquisas sobre lagartos que roubam pizza, leite com gosto de alho e vacas pintadas como zebras 2024: pesquisas sobre mamíferos que respiram pelo ânus, 'pombos-mísseis' e trutas mortas 2023: estudos sobre lamber fósseis e "ressuscitar" aranhas levaram o prêmio 2022: pesquisadores da USP ganham com pesquisa sobre sexo entre escorpiões 2021: barbas amortecedoras, baratas e chicletes mastigados 2020: brasileiro é um dos premiados por pesquisa sobre beijos e desigualdade de renda 2019: pizza contra câncer e estudo sobre temperatura do escroto 2018: pesquisa sobre o valor nutricional do canibalismo ganha Ig Nobel, prêmio da ciência bizarra; veja mais vencedores 2017: música intravaginal, gatos líquidos e orelhas grandes de idosos 2016: efeitos do uso de calças de poliéster, algodão ou lã na vida sexual de ratos 2015: 'frangossauro' e teste com picadas de abelha no pênis