Lobo-guará é flagrado devorando urutu-cruzeiro (uma das famosas jararacas) na Serra da Canastra Alessandro Abdala A dieta do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é bastante variada e inclui frutos, pequenos mamíferos, aves e répteis.

Mas um flagrante feito no Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais, chamou a atenção por registrar uma presa pouco comum: uma urutu-cruzeiro (Bothrops alternatus), serpente peçonhentam (uma das jararacas presentes no Brasil) que pode chegar a cerca de um metro de comprimento. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram As imagens foram feitas em setembro deste ano, pelo fotógrafo de natureza e guia de observação de aves Alessandro Abdala, durante uma saída a campo no município de Sacramento (MG).

Ele acompanhava um casal de fotógrafos chineses quando avistou o lobo-guará em meio à vegetação do Cerrado. “Inicialmente, o animal parecia estar procurando alguma coisa entre as gramíneas, com a cabeça abaixada. Em determinado momento, quando levantou a cabeça, percebi que carregava uma serpente na boca.

Foi então que fotografei a cena”, conta Alessandro. O fotógrafo não presenciou o momento da captura, mas conseguiu registrar o animal com a serpente, que já estava parcialmente consumida. As imagens acompanharam o lobo-guará até o momento em que ele engoliu a presa por inteiro.

Lobo-guará é flagrado devorando urutu-cruzeiro na Serra da Canastra Alessandro Abdala VEJA TAMBÉM: O segredo para recuperar florestas pode estar no olfato dos morcegos Coruja aparece sobre imagem de santo e surpreende padre que coleciona 300 peças da ave Jacutinga percorre 30 km pela Mata Atlântica e surpreende pesquisadores ao voltar para 'casa' Como a serpente foi parar na boca do lobo-guará? Embora o lobo-guará apareça comendo a urutu-cruzeiro, não é possível afirmar que ele tenha matado a serpente.

Para o herpetólogo Willianilson Pessoa, o animal pode ter encontrado a presa já morta ou até mesmo restos deixados por outro predador. “Não acredito que tenha sido o lobo-guará que matou a serpente. Ele pode ter encontrado o animal já morto ou até mesmo restos deixados por uma ave ou outro predador.

Existe a possibilidade de ele ter caçado a serpente, mas considero essa hipótese menos provável”, avalia o especialista. A dieta do lobo-guará é bastante variada e inclui frutos, pequenos mamíferos, aves e répteis Alessandro Abdala O lobo-guará tem hábitos alimentares oportunistas e consome diferentes tipos de recursos, incluindo frutos, insetos e alguns vertebrados. Apesar disso, Willianilson pondera que o registro, por si só, não permite concluir que o animal tenha caçado a serpente.

A distinção é importante para interpretar o flagrante. As fotografias documentam o consumo da urutu-cruzeiro, mas não revelam como o lobo-guará teve acesso à presa nem se houve uma tentativa de caça. Veja o que está em alta no g1: Agora no g1 Registro pode ampliar o conhecimento sobre a dieta da espécie O lobo-guará é um canídeo onívoro e oportunista, ou seja, alimenta-se de diferentes recursos disponíveis no ambiente.

A fruta-do-lobo é um dos itens mais conhecidos de sua dieta, mas a espécie também consome animais, incluindo pequenos vertebrados. Embora estudos científicos já mencionem o consumo de serpentes pelo lobo-guará, Alessandro afirma que não encontrou, durante o levantamento bibliográfico inicial, publicações que identificassem especificamente a urutu-cruzeiro como parte da alimentação da espécie. “Existem trabalhos científicos que mencionam o consumo de serpentes, inclusive representantes do gênero Bothrops.

Entretanto, durante o levantamento bibliográfico que realizamos, não encontramos registros publicados que identificassem especificamente a urutu-cruzeiro como parte da alimentação do lobo-guará”, explica.

Durante o levantamento bibliográfico, pesquisadores não encontraram registros publicados que identificassem especificamente a urutu-cruzeiro como parte da alimentação do lobo-guará Alessandro Abdala A identificação da presa foi feita ainda em campo, a partir das características morfológicas e do padrão de coloração observados nas fotografias. Segundo Alessandro, esses elementos permitiram reconhecer a serpente como uma urutu-cruzeiro.

O possível ineditismo do flagrante está justamente na identificação da espécie consumida. A confirmação de que se trata do primeiro registro documentado dessa interação, porém, depende da análise da literatura científica e da avaliação do trabalho por especialistas. Serpente peçonhenta representa risco ao predador?

Além da possível novidade para o conhecimento sobre a dieta do lobo-guará, o flagrante levanta uma questão importante: quais são os riscos de um mamífero consumir uma serpente peçonhenta? A urutu-cruzeiro pertence ao gênero Bothrops, respectivos às populares jararacas, cujas espécies possuem peçonha capaz de provocar efeitos graves em mamíferos quando inoculada por meio de uma picada. Por isso, mesmo que a serpente já esteja morta, o contato com as presas inoculadoras pode representar um risco.

Urutu-cruzeiro é temida pelo poder do veneno Willianilson Pessoa “Mesmo que a serpente já esteja morta, o lobo-guará pode correr risco ao comê-la, caso as presas inoculadoras perfurem seus tecidos. A peçonha provoca seus efeitos principalmente quando é inoculada por meio de uma picada. Por isso, o contato com uma serpente morta também pode representar um risco”, alerta Willianilson.

No caso do lobo-guará fotografado na Serra da Canastra, não há informações suficientes para saber se houve uma picada ou se o animal sofreu algum efeito decorrente do contato com a serpente. Alessandro conta que não percebeu sinais evidentes de envenenamento durante o período em que acompanhou o lobo-guará. No entanto, como não presenciou a captura, não sabe dizer se o animal chegou a ser picado.

Fotografias podem contribuir para a ciência O registro está em processo de documentação para a elaboração de uma nota científica. A iniciativa surgiu a convite da professora Mileny Otani, com a colaboração do biólogo Wallison Bittencourt, ambos da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A preparação do trabalho envolve a organização dos dados de campo, a descrição das circunstâncias da observação, a análise das fotografias e a revisão da bibliografia.

A proposta é submeter a nota a uma publicação científica especializada, na qual o material será avaliado por pesquisadores. As imagens acompanharam o lobo-guará até o momento em que ele engoliu a presa por inteiro Alessandro Abdala Para Alessandro, o episódio mostra como registros feitos durante atividades de observação da natureza podem contribuir para o conhecimento sobre a fauna.

“Uma cena aparentemente simples, como um lobo-guará carregando uma serpente, pode acrescentar uma informação relevante ao conhecimento científico sobre as relações entre predadores e presas”, destaca. O flagrante também reforça que, mesmo entre espécies bastante estudadas, ainda há interações ecológicas que podem passar despercebidas. No Cerrado, observar e documentar esses encontros ajuda a ampliar o conhecimento sobre os hábitos alimentares dos animais e as relações que estabelecem no ambiente.

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