Aos 88 anos, barbeiro segue atuando em salão criado em 1916 Aos 88 anos, o barbeiro Ismar Alves Barbosa, o Biju, segue na ativa atrás da cadeira do salão. O apelido de duas sílabas carrega junto outras duas que atravessaram gerações: Tupy. O nome está na fachada da barbearia inaugurada em 1916 pelo pai de Biju e transformado em um dos estabelecimentos mais tradicionais de Uberaba, no Triângulo Mineiro.
Entre tesouras, navalhas e cadeiras que resistiram ao passar do tempo, o Tupy atravessou guerras, crises econômicas, mudanças de costumes e revoluções na moda masculina e feminina sem abandonar a essência que o tornou conhecido. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Triângulo no WhatsApp A história de Ismar se confunde com a do salão. A trajetória de Biju sempre teve a barbearia por perto, mas o salão não começou com cabelos, espelhos ou espuma de barbear.
Ele começou com um violão. Sentado entre objetos que parecem congelados em outra época, Biju sorri ao recordar a origem do negócio da família. A memória o leva para os tempos em que o pai, Osvaldo Barbosa, deixou Sacramento rumo a Uberaba acompanhado dos pais e dos seis irmãos em busca de uma vida melhor.
"A primeira coisa que meu pai fez quando chegou aqui foi comprar um violão", contou aos risos. Ismar Alves Barbosa, o Biju Mariana Dias/G1 A aquisição, no entanto, não agradou nem um pouco o patriarca da família. "Meu avô ficou bravo.
Eles tinham vindo para trabalhar, precisavam de dinheiro, e ele apareceu com um violão. Parecia uma loucura." A bronca fez Osvaldo tentar desfazer o negócio. Ele caminhou pelo Centro de Uberaba tentando vender o instrumento e recuperar o dinheiro investido, mas ninguém demonstrava interesse.
"O povo olhava, admirava, mas ninguém queria comprar", lembrou Biju. Quando já estava prestes a desistir, surgiu uma proposta inesperada. Um homem disse que não tinha interesse no violão, mas ofereceu uma troca: o instrumento por um kit completo de barbeiro.
Tesouras, navalhas, escovas e ferramentas de trabalho. Osvaldo aceitou. Ao voltar para casa carregando o equipamento, apresentou ao pai aquilo que seria o começo de uma história centenária.
"'Pai, eu não consegui vender o violão, mas um homem me ofereceu esse material e eu juro que vou ser um ótimo barbeiro'. Foi assim que tudo começou", afirmou Biju. O nascimento do Tupy Pouco tempo depois, ainda muito jovem, com cerca de 18 ou 19 anos, Osvaldo abriu o Salão Tupy, na rua Castro Alves.
Nem mesmo Biju sabe explicar a origem do nome. "Nunca descobri de onde saiu esse Tupy. Meu pai nunca explicou e acabou ficando por isso mesmo", disse.
O que ele sabe é que o estabelecimento rapidamente conquistou clientes. Em uma época sem redes sociais, a fama era construída no boca a boca. "O segredo era fazer exatamente o que o cliente pedia.
Meu pai tinha muito capricho. A pessoa saía satisfeita e indicava para outra." O salão cresceu junto com Uberaba. Cadeiras do Salão Tupy foram trazidas dos EUA ao Brasil Reprodução/Redes Sociais E não foram apenas os homens que ajudaram a construir essa reputação.
Antes da popularização dos salões femininos na cidade, muitas mulheres também procuravam o Tupy para cuidar dos cabelos. As cadeiras vieram dos Estados Unidos. As navalhas também.
Até algumas escovinhas utilizadas nos atendimentos foram importadas. Instrumentos de trabalho usados no Tupy mantém tradição na barbearia Mariana Dias/G1 Muitas delas permanecem no salão até hoje. Quem entra no Tupy encontra um ambiente que parece desafiar o relógio.
Não existe aplicativo para marcar horário. Não há agendamento on-line. Os clientes chegam, conversam e aguardam sua vez.
"O mais moderno aqui talvez seja o ventilador", brincou Biju. LEIA TAMBÉM: IFTM abre 613 vagas de graduação; confira os cursos para Uberaba 'Minas são muitas': na terra de gigantes, em Uberaba moradores sonham com mais justiça social, fim do racismo e saúde acessível Uma vida inteira entre tesouras Salão Tupy centenária Uberaba Mariana Dias/G1 Com o passar dos anos, o salão deixou de ser apenas um negócio para se tornar uma herança familiar.
Os filhos de Osvaldo cresceram em meio aos espelhos e às cadeiras de barbeiro. Entre eles estavam Biju e Edson, que aprenderam o ofício observando o pai trabalhar. "Praticamente todos nós crescemos dentro do salão.
Desde pequenos acompanhávamos o trabalho dele e fomos aprendendo naturalmente", relembrou. Segundo Biju, apenas um dos irmãos decidiu seguir um caminho diferente. "Teve um que falava que não levava jeito para cortar cabelo.
Acabou virando marceneiro. Mas todos nós fomos criados aqui dentro." Biju e Edson Reprodução/Redes Sociais Ao falar do pai, a admiração permanece evidente. "Meu pai era muito prestativo, muito habilidoso.
Era rápido, inteligente para trabalhar. Naquele tempo não existiam esses cortes modernos. Ele fazia uma nuca disfarçada perfeita e o povo gostava." O peso do tempo Atualmente, uma placa instalada na cidade reconhece a importância histórica do Tupy para Uberaba.
Mas o tempo também trouxe despedidas. Em 2024, Edson morreu aos 88 anos. O irmão que dividiu décadas de trabalho ao lado de Biju deixou uma ausência que ainda é sentida no salão.
"A gente trabalhou a vida toda junto. Foram muitos anos dividindo esse espaço." Mesmo assim, ele continua abrindo as portas todos os dias. Quando olha para frente, Biju reconhece que talvez esteja vivendo os últimos capítulos de uma tradição iniciada há mais de cem anos.
"Meu filho trabalhou comigo durante um tempo, mas seguiu outros rumos. Um dos meus netos também aprendeu bastante coisa aqui, mas acabou escolhendo outro caminho. Acredito que infelizmente serei a última geração do Tupy, mas como toda história com começo e meio, chega uma hora que o fim também deve ser escrito”, finalizou.
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