Coral branqueado volta a ter cor após contato com corais saudáveis Corais à beira da morte voltaram a ganhar cor e vida em poucas semanas depois de receber uma espécie de transplante de um vizinho saudável. Não houve cirurgia nem equipamento: bastou deixar os dois encostados por alguns dias. (Veja o vídeo acima) O experimento foi feito em laboratório por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e publicado nesta quarta-feira (14) na revista científica Science.

Essa é a primeira demonstração de que o contato físico pode reverter o branqueamento por completo. O “órgão” doado são as microalgas que vivem dentro dos corais e lhes dão cor e energia. No ponto de contato, os tecidos dos dois fragmentos se fundiram e abriram passagem para elas.

Já dentro do coral doente, as algas se multiplicaram num ritmo até dez vezes mais rápido do que o registrado em recifes na natureza. Coral branqueado ao encostar em coral saudável faz trocas que que trazem saúde de volta Dan Griffin/GG Films O branqueamento é uma resposta ao aquecimento dos oceanos. Os corais vivem em parceria com essas microalgas, que moram em seus tecidos e produzem alimento por meio da fotossíntese.

Quando a água esquenta demais, essa relação se rompe. O coral expulsa as algas, perde a cor e começa a passar fome. Se o calor se prolonga, ele morre.

O prejuízo vai além dos corais. Os recifes abrigam um quarto de toda a vida marinha e funcionam como barreira natural contra tempestades. Também sustentam a pesca e movimentam o turismo.

No Brasil, o fenômeno já se repete. O primeiro grande evento de branqueamento no país foi registrado em 2019. O calor extremo de 2024 provocou um novo episódio, e o El Niño de 2026 volta a colocar os recifes em risco.

Coral completamente branco em área de proteção ambiental entre Pernambuco e Alagoas Reprodução/Projeto Recifal No mundo, foram quatro eventos globais desde 1998, e o mais recente durou de 2023 a 2025. As projeções citadas no estudo indicam que o branqueamento em massa pode se tornar anual até 2080. “Embora os corais branqueados possam estar morrendo, eles ainda não estão mortos”, afirmou o autor principal, Danny Collins, doutorando em oceanos em Stanford.

Dois corais tombados no aquário deram início ao estudo A ideia surgiu por acaso. Em 2025, o biólogo Steve Palumbi, coautor do estudo, notou algo curioso em um dos tanques do laboratório. Dois pedaços de coral da mesma colônia tinham tombado e ficado encostados: um branqueado e outro saudável.

No ponto de contato, o fragmento branco começava a recuperar a cor. Era o sinal de que as algas estavam voltando. Na época, Collins estudava o caminho inverso: como bactérias nocivas presas a detritos de plástico chegam aos corais pelo contato físico.

A cena levou o grupo a testar se o toque poderia transmitir também algo benéfico. O teste foi simples. Os pesquisadores usaram o coral-couve-flor (Pocillopora damicornis), espécie comum nos recifes dos oceanos Índico e Pacífico.

Pesquisador descobriu sem querer que corais que estavam se tocando, estavam fazendo trocas que deixavam coral brannqueado saudável Dan Griffin/GG Films Primeiro, eles branquearam ramos em aquário, aquecendo a água até cerca de 34,5°C. Depois, formaram dez pares de fragmentos de 1 a 1,5 centímetro, sempre um branqueado e um saudável, vindos da mesma colônia. Em cinco pares, os fragmentos ficaram encostados.

Nos outros cinco, ficaram a uma distância de 5 a 7 milímetros, o suficiente para que não se tocassem nem com os pólipos estendidos. Os pólipos são as pequenas unidades que formam o coral, cada uma com uma boca cercada de tentáculos. O contraste apareceu em poucas semanas: Em contato: todos os fragmentos se recuperaram por completo em até oito semanas, e um deles em apenas quatro.

A cor voltava primeiro no ponto de encontro e depois se espalhava pelo resto do coral. Separados: os fragmentos continuaram brancos por semanas e foram tomados por algas filamentosas. Ao fim de nove semanas, dois tinham morrido e os outros três estavam com mais de 87% da superfície coberta.

Os corais recuperados terminaram o experimento com mais pólipos do que no início, sinal de que tinham voltado a crescer. Na 20ª semana, já formavam ramos novos. Os isolados, a essa altura, estavam ainda piores.

Coral saudável e branqueado eram unidos para 'transplante' Danny Collins Uma semana de contato salvou o coral Para medir quanto tempo de toque era necessário, a equipe separou os pares depois de intervalos que iam de um dia a três semanas. Uma semana foi suficiente, e em um dos casos, cinco dias. A partir daí, o fragmento branqueado completou a recuperação sozinho, no mesmo ritmo dos que continuaram encostados.

Com três dias, houve sinais de melhora, mas as algas invasoras acabaram vencendo. Com um dia, nada mudou. O fragmento saudável funciona, então, como um doador de sementes.

Ele entrega o primeiro lote de microalgas, e o resto do trabalho fica com elas, que se reproduzem dentro do coral recém-colonizado. E fazem isso depressa. Na segunda semana de contato, a população de algas dobrava a cada quatro dias, em média.

Estudos anteriores citados pelos autores mostram que o mesmo processo levou três meses na Grande Barreira de Corais, na Austrália, e de 16 a 24 dias em corais de Samoa. “Quando as algas benéficas entram nos corais branqueados, elas não se espalham apenas. Elas invadem e começam a se dividir nas taxas mais rápidas já vistas em corais”, disse Palumbi.

A equipe ainda não sabe explicar essa velocidade. Uma hipótese é que as algas vindas de um coral saudável, sem passar pelo estresse do calor, chegam em melhores condições para se multiplicar. Em poucos dias, algas vitais fluem de corais saudáveis ​​para corais branqueados, dando início ao processo de recuperação.

Danny Collins E por que isso acontece? Com um microscópio a laser, os pesquisadores viram que a passagem em massa das algas começava entre 36 e 60 horas após o contato, sempre em pontos específicos. Ali, os tecidos dos dois fragmentos se fundiam e formavam pequenas pontes.

(Veja a imagem acima) Quando os pares eram separados, apareciam rasgos idênticos nos dois lados, no lugar exato onde as algas tinham começado a passar. Dessas pontes, elas seguiam pelos canais internos do coral, uma rede de tubos microscópicos que faz circular fluidos por todo o organismo. A fusão só acontece porque os dois pedaços são geneticamente idênticos.

Na maioria das espécies, o coral se multiplica produzindo cópias de si mesmo, e esses clones crescem juntos até formar a colônia. Palumbi compara o processo aos transplantes de órgãos em humanos, que costumam dar certo quando o doador é um gêmeo idêntico. Quando os cientistas encostaram fragmentos de colônias diferentes, o encontro virou disputa.

Em poucas horas, os corais lançaram filamentos cobertos de células urticantes, uma arma usada contra vizinhos. Algumas algas chegaram a passar, engolidas pela boca dos pólipos, mas em quantidade pequena demais. Nenhum fragmento branqueado se recuperou, e quatro dos seis acabaram totalmente cobertos pelo coral saudável.

Agora, dá para salvar os corais do mundo assim? A pesquisa é bem promissora, mas a realidade não é tão simples assim. A solução mais eficaz ainda é preservar os recifes.

Os próprios autores ressaltam que o resultado ainda está longe de virar ferramenta de restauração. O teste envolveu uma única espécie, mantida em aquário e provavelmente mais bem alimentada do que seria no mar. Não se sabe se o efeito se repete em outros corais, com outros tipos de alga ou em colônias de formatos diferentes.

Há ainda a questão da escala. Manter pedaços de coral encostados por dias seguidos, em pleno oceano e na extensão de um recife, seria difícil de executar. Corais branqueados da espécie Millepora alcicorn Reprodução/Carlos dos Santos Ainda assim, o estudo muda o olhar sobre o que fazer depois de uma onda de calor.

A maior parte das pesquisas até aqui buscou evitar o branqueamento, com reprodução seletiva de corais resistentes ao calor, engenharia genética e transplante de microbiomas. Pouco se investigou sobre como salvar os que já perderam a cor, em parte porque costumam ser vistos como casos perdidos. Não é a primeira tentativa de usar corais saudáveis como doadores.

Em um trabalho anterior citado pelos autores, a transferência acontecia pela água, sem contato. Depois de 55 dias, só 5 de 45 fragmentos tinham recebido algas do doador, e em quantidades mínimas. O novo experimento aponta para um processo natural, que não depende de modificação genética nem de equipamentos sofisticados.

Segundo os autores, muitos recifes branqueiam em manchas, com colônias saudáveis ao lado das afetadas. Esses trechos que resistem ao calor podem funcionar como um estoque de algas pronto para repovoar os vizinhos, mais um argumento para manter os recifes protegidos. O próximo passo da equipe é encontrar formas de entregar as algas sem depender do contato contínuo.

Uma ideia é coletá-las de corais saudáveis antes das ondas de calor e aplicá-las em grande quantidade nos branqueados depois. Para Fiorenza Micheli, orientadora de Collins, a expectativa é que o achado inspire soluções capazes de manter os corais vivos por tempo suficiente. Assim, processos mais lentos, como o crescimento e a reprodução, teriam chance de completar a recuperação.