Uma das disputas presidenciais mais acirradas da história chegou ao fim neste domingo (25), depois de uma campanha marcada por intensa mobilização nas ruas, embates nas redes envolvendo “soldados” digitais e uma enxurrada de ações na Justiça Eleitoral. A polarização obrigou as duas candidaturas a rever estratégias na corrida voto a voto.

As discussões foram além dos programas de governo e abriram espaço para promessas de última hora de apelo popular, benefícios econômicos e mudanças de posição dos próprios candidatos. Quantas eleições Lula disputou e quantas venceu?

Relembre Da controvérsia que não poupou Nossa Senhora Aparecida às propostas para a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a corrida ao Palácio do Planalto acumulou episódios que extrapolaram os palanques e acabaram também nos tribunais.

Veja alguns dos principais temas e episódios que marcaram a campanha presidencial de 2026: Nossa Senhora Aparecida e a disputa pelo voto religioso; crise no STF e inteligência artificial; reajuste do Bolsa Família e promessas de apelo popular; fim das bets e da escala 6x1; mudanças de posição e de estratégia; mobilização nas ruas e nas redes; plataformas digitais e Justiça Eleitoral; debates e disputa pela abertura de sigilos.

Do segundo turno ao dia seguinte: as estratégias das campanhas e os desafios de quem vencer Do primeiro ao segundo turno e religião No primeiro turno, a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), a proibição das bets e o uso de inteligência artificial (IA) estiveram entre os assuntos que dominaram a eleição. Economia, questões sociais e segurança pública também pautaram a disputa, mas ganharam novos contornos quando o segundo turno colocou Lula e Flávio frente a frente.

Lula poderá disputar a Presidência novamente em 2030? Entenda Pautas que antes dividiam espaço entre cinco candidaturas viraram munição no confronto direto entre os dois adversários. Houve cobranças públicas, ajustes de rota e novas promessas em busca dos votos decisivos.

Lula intensificou a mobilização corpo a corpo e nas redes, enquanto Flávio buscou reduzir a exposição e evitar erros na reta final. O embate entre os candidatos também chegou aos debates de forma tardia. Eles se enfrentaram pela primeira vez na Band a uma semana das eleições — quando troca de acusações e tentativas de desconstrução do adversário prevaleceram.

Na sexta-feira (23), Lula e Flávio Bolsonaro fizeram o último confronto direto no debate da TV Globo. Na ocasião, repetiram os ataques, mas também apresentaram e discutiram propostas. Nas redes, “Exército do Lula” e “Tropa do Flávio” mobilizaram “soldados” para cumprir “missões”, enquanto a Meta virou alvo dos dois lados após questionamentos sobre a isonomia no tratamento das candidaturas em suas plataformas.

A Justiça Eleitoral foi demandada e mobilizada em diferentes frentes, das redes e da inteligência artificial à propaganda eleitoral. A judicialização se tornou uma das marcas da campanha: até a reta final, mais de 800 ações relacionadas à corrida presidencial haviam chegado ao TSE.

Flávio Bolsonaro (PL), Lula (PT) e as propostas dos candidatos para o agro Vittor Sales / Ricardo Stuckert Veja temas que marcaram a campanha LEIA MAIS: Lula se torna o presidente eleito mais velho da história; veja ranking Lula é reeleito: quando será a posse presidencial em 2027?

Veja a nova data 1- Nossa Senhora Aparecida e a disputa pelo voto religioso A controvérsia começou após a circulação, nas redes sociais, de publicações que associavam Flávio Bolsonaro e setores da direita a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O candidato negou a existência de qualquer proposta nesse sentido. Na ocasião, não havia projeto com esse conteúdo em tramitação no Congresso nem mobilização organizada de evangélicos com esse objetivo.

Em 25 de setembro, o ministro André Mendonça determinou a remoção de publicações relacionadas ao tema. Dois dias depois, o ministro Flávio Dino derrubou a ordem ao analisar um pedido apresentado pelo humorista Antonio Tabet. Em 28 de setembro, a defesa de Flávio Bolsonaro recorreu, e o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Flávio Dino e restabeleceu as determinações de André Mendonça até a análise do caso pelo plenário do Supremo.

Em 30 de setembro, o plenário virtual do Tribunal Superior Eleitoral decidiu manter a retirada de posts falsos que ligavam Flávio Bolsonaro a um suposto movimento para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Os sete ministros concordaram que houve disseminação de informação falsa, mas divergiram sobre o alcance das medidas de remoção dos conteúdos. Entre as publicações suspensas estava uma postagem de Antonio Tabet, que não citava Flávio Bolsonaro nominalmente.

Durante o julgamento, André Mendonça mudou parte de seu voto e decidiu liberar a publicação. Os demais ministros acompanharam esse entendimento. Flávio Bolsonaro negou ter a intenção de retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida.

Em meio à polêmica, o candidato também acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de terem colaborado para disseminar a informação falsa. A entidade negou participação na elaboração ou divulgação das informações e afirmou que “mentira não se combate com outra mentira”. A religião continuou presente na campanha depois do primeiro turno.

Em 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, o presidente, candidato à reeleição, participou de uma missa no Palácio da Alvorada e afirmou que a padroeira vinha sendo “ofendida” por alguns religiosos. Flávio participou de uma celebração na Catedral de Brasília. O candidato a vice na chapa de Lula, Geraldo Alckmin, foi ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.

No mesmo dia, o programa eleitoral do candidato do PL abriu com uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida. A propaganda de Lula, que teve como foco o custo de vida, também mencionou a padroeira. No segundo turno, Lula também intensificou a tentativa de aproximação com os evangélicos.

Em 14 de outubro, o presidente enviou uma carta às famílias evangélicas. Nessa carta, o presidente falou de religião e família, citou o combate às bets, a defesa de dois dias de descanso semanal, segurança e saúde e pediu aos fiéis “discernimento” na escolha eleitoral. O texto foi divulgado pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

A movimentação ocorreu em um segmento no qual Lula enfrentava dificuldades. Pesquisa Quaest divulgada em 28 de setembro mostrou Flávio com 46% das intenções de voto entre os evangélicos e Lula com 27%. Na reta final, a participação de integrantes da Igreja Católica na discussão eleitoral ganhou um novo capítulo.

Um grupo de 64 bispos católicos de 21 estados divulgou uma carta sobre o segundo turno. O documento não citava Lula nem Flávio nominalmente, mas fazia referências ao governo de um dos candidatos e dizia que pretendia contribuir para a decisão dos eleitores católicos. A CNBB, procurada pelo g1, reafirmou a defesa da democracia, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores.

2- Crise no STF e inteligência artificial A crise envolvendo ministros do Supremo se transformou em um dos principais temas da campanha presidencial. O episódio começou no início de setembro, após virem à tona relatórios da Polícia Federal sobre mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao ministro Alexandre de Moraes. A PF também apontou que Moraes editou um contrato de R$ 130 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e Vorcaro.

Moraes negou ter cometido irregularidades ou favorecido o ex-banqueiro ou o banco. A crise ganhou uma nova dimensão com o embate entre André Mendonça e Alexandre de Moraes. Em 15 de setembro, os dois discutiram durante uma sessão do Supremo que analisava se havia elementos para abrir uma investigação sobre Moraes.

O julgamento não chegou a uma conclusão sobre esse ponto. Nos dias seguintes, a divisão interna se estendeu a outros temas e passou a envolver outros integrantes da Corte. Às vésperas do primeiro turno, a disputa também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral.

Decisões de ministros de campos opostos no Supremo passaram a atingir questões com repercussão na eleição, entre elas a controvérsia sobre publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A crise também entrou na estratégia dos candidatos. Durante o primeiro turno, a campanha de Flávio Bolsonaro passou a explorar o desgaste do Supremo e intensificou as críticas a Alexandre de Moraes.

Do lado de Lula, parte dos aliados defendia que o presidente mantivesse distância de Moraes. Depois do primeiro turno, a disputa interna no Supremo continuou sem solução definitiva. Em 19 de outubro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou não ter identificado abuso de autoridade de André Mendonça na condução de ações do caso Master e se posicionou contra a abertura de investigação do ministro com base nos relatórios de inteligência da PF.

O pedido para investigar Mendonça havia sido apresentado por Moraes, que apontou “fortes indícios” de abuso de autoridade e possível crime de responsabilidade. Segundo a PGR, caberá ao plenário do Supremo autorizar ou rejeitar eventual investigação de um integrante da Corte. A manifestação da PGR não encerrou a crise.

A definição sobre a abertura de uma investigação contra André Mendonça permanecia nas mãos do plenário do Supremo. O embate havia começado justamente em torno de uma discussão semelhante sobre Alexandre de Moraes: se os elementos encontrados nas investigações do caso Master justificavam ou não uma apuração contra o ministro. A campanha de 2026 foi marcada, ainda, pelo uso constante de inteligência artificial e pelas discussões sobre os limites da tecnologia na propaganda eleitoral.

Vídeos, imagens e outros conteúdos produzidos com IA levaram campanhas e a Justiça Eleitoral a discutir quais materiais poderiam ser usados para favorecer ou prejudicar candidatos. O tema ganhou destaque depois que a convenção nacional do Partido Liberal, que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência, exibiu um vídeo produzido com inteligência artificial para reproduzir a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na gravação, o ex-presidente declarou apoio à candidatura do filho.

O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral. Em 1º de setembro, os ministros rejeitaram a aplicação de multa a Flávio Bolsonaro pelo vídeo. A maioria entendeu que não houve violação das regras eleitorais porque o material foi exibido durante a convenção partidária e que a transmissão do evento pela internet, por si só, não transformou a manifestação em propaganda eleitoral antecipada.

No mesmo julgamento, o tribunal manteve a proibição de deepfakes na campanha, mas estabeleceu que, para ser enquadrado dessa forma, o conteúdo produzido ou manipulado por inteligência artificial deve ter grau de realismo ou verossimilhança capaz de criar uma falsa percepção de autenticidade. A regra vale para conteúdos que criem, reproduzam ou alterem imagem, voz ou manifestação de pessoas vivas, mortas ou fictícias.

🔎 Deepfake é uma tecnologia de inteligência artificial usada para criar ou alterar vídeos, áudios e imagens de forma realista. Pela decisão do TSE, memes, caricaturas, animações e outras representações que não tentem reproduzir a realidade de maneira convincente recebem tratamento diferente dos conteúdos capazes de enganar o eleitor. A decisão estabeleceu um parâmetro para outros processos sobre o uso de inteligência artificial na eleição.

À época do julgamento, havia mais de 50 ações na Justiça Eleitoral que poderiam ser afetadas pelo entendimento do TSE. Os casos envolviam, entre outras situações, falsos apoios políticos, pesquisas inexistentes, diálogos simulados e eleitores fictícios produzidos com a tecnologia. No segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro intensificaram suas estratégias nas redes sociais.

Um levantamento do g1 publicado em 18 de outubro analisou 2.129 publicações dos dois candidatos no Instagram e mostrou que Lula aumentou o volume de posts e passou a mencionar mais diretamente o adversário, enquanto Flávio publicou menos e manteve o discurso concentrado em pedidos de voto. O levantamento tratou das estratégias digitais dos candidatos, e não apontou um novo episódio relevante de deepfake entre os dois no segundo turno.

3- Reajuste do Bolsa Família, apostas e promessas de apelo popular O Bolsa Família permaneceu no centro da campanha nos dois turnos. Ainda na primeira etapa da disputa, o presidente Lula anunciou reajuste de cerca de 15% no programa, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691. O governo negou motivação eleitoral para a medida.

O aumento foi criticado por adversários. Flávio Bolsonaro acusou Lula de tentar comprar o voto dos mais pobres com o reajuste. O tema ganhou ainda mais espaço no segundo turno, quando os dois candidatos passaram a disputar diretamente o apoio dos beneficiários do programa.

Flávio, que em publicações antigas havia chamado o programa de “bolsa-farelo” e associado benefícios sociais ao uso eleitoral pelo PT, passou a defender sua manutenção durante a campanha de 2026 e afirmou que o Bolsa Família era um “direito adquirido” dos brasileiros. A campanha de Flávio também propôs uma mudança nas regras do programa.

Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico do candidato, afirmou que um eventual governo do senador criaria uma regra de transição de dois anos para beneficiários que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio, com retorno automático ao Bolsa Família caso perdessem a fonte de renda. Na reta final, a campanha de Lula intensificou a busca por votos entre beneficiários do Bolsa Família.

A estratégia incluiu mensagens destacando o reajuste concedido pelo governo e relembrando declarações antigas de Flávio contra o programa. Em 19 de outubro, a seis dias do segundo turno, o governo também antecipou parte do calendário do Bolsa Família e concentrou os pagamentos do mês em três datas. A parcela de outubro foi a primeira com o piso reajustado de R$ 691.

Segundo o governo, a mudança buscou reduzir os impactos do super El Niño sobre as famílias mais vulneráveis e também seria adotada em novembro e dezembro. A disputa pelo eleitorado ocorreu em meio à apresentação de outras medidas com impacto direto na renda. Em 13 de outubro, Lula anunciou o Prospera MEI, pacote voltado aos microempreendedores individuais.

Entre as iniciativas estavam perdão de dívidas com a União, renegociação de débitos bancários, aumento do teto de faturamento e mudanças nas regras para contratação de funcionários. Parte das medidas foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Lula em 21 de outubro. O governo também anunciou o PixMEI, que previa até R$ 5 mil, sem necessidade de devolução, para investimentos em pequenos negócios.

A medida, no entanto, ficou fora do texto aprovado pelo Congresso e ainda precisava ser enviada aos parlamentares. Flávio também anunciou medidas voltadas à renda na reta final. Entre elas estava o ViraPix, proposta para devolver ao consumidor parte dos pagamentos de contas e prestações feitos por Pix.

A campanha não detalhou como a iniciativa seria implementada. O candidato também prometeu retomar o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), criado no governo de Jair Bolsonaro e encerrado pelo governo Lula em 2025. Assim, programas sociais e medidas com impacto direto sobre a renda ganharam espaço na reta final da disputa, ao lado das discussões sobre emprego, jornada de trabalho, impostos e custo de vida.

4- Fim das bets e da escala 6x1 As apostas on-line também entraram na campanha ainda no primeiro turno. O tema apareceu nas discussões sobre regulação, arrecadação e os impactos sociais das plataformas de apostas. A discussão ganhou força depois que o governo Lula anunciou, a nove dias do primeiro turno, uma medida provisória para proibir apostas de quota fixa no país.

A vedação abrangia também jogos on-line e cassinos virtuais, como o chamado “Jogo do Tigrinho”. O governo enviou ainda ao Congresso um projeto para estabelecer pena de prisão para quem explorasse, operasse ou divulgasse bets. Flávio Bolsonaro criticou a iniciativa, classificou a decisão de Lula como oportunista e “estelionato eleitoral” e afirmou que, se eleito, não permitiria “cassino online, nem Tigrinho” durante seu mandato.

No primeiro turno, outros candidatos também se posicionaram sobre as apostas. Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado defenderam medidas que iam da proibição e maior tributação à restrição gradual das plataformas. O assunto permaneceu com peso eleitoral no segundo turno.

Pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro apontou que a proibição das bets estava entre as propostas de maior aprovação dos eleitores entre as medidas apresentadas pelos dois candidatos ou discutidas ao longo da campanha. O levantamento ouviu 2.154 pessoas entre 10 e 13 de outubro.

O fim da escala 6x1 também passou a ser explorado pelas campanhas logo depois do primeiro turno, quando o Senado começou a discutir a proposta que reduzia a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e garantia dois dias de descanso, sem redução de salário. Lula transformou a aprovação da medida em uma bandeira do segundo turno e passou a cobrar publicamente uma posição de Flávio Bolsonaro e do PL. Governistas também planejavam usar a votação no Senado para expor parlamentares contrários à proposta.

No início das discussões no Senado, aliados de Flávio tentaram evitar a votação e defenderam uma proposta alternativa, que permitia reduzir a jornada com diminuição proporcional do salário. A maioria dos senadores do PL não participou da primeira sessão de discussão, em 6 de outubro. Dias depois, Flávio mudou de posição e anunciou voto favorável à proposta.

A mudança também foi explorada pela campanha de Lula, que passou a afirmar na propaganda eleitoral que o adversário havia revisto sua posição após pressão popular. Em 14 de outubro, o Senado aprovou o fim da escala 6x1 por 75 votos a 1 nos dois turnos. A proposta reduziu a jornada semanal de 44 para 40 horas e garantiu dois dias de folga remunerada, sem redução salarial.

Flávio votou a favor. A aprovação ocorreu a 11 dias do segundo turno e representou uma vitória política para Lula, que havia adotado a medida como bandeira de campanha. Pesquisa Quaest divulgada no mesmo dia mostrou que o fim da escala 6x1 estava entre as propostas debatidas na eleição com maior aprovação dos entrevistados.

5- Mudanças de posição e de estratégia O segundo turno levou Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro a rever posições adotadas anteriormente. Sem os outros candidatos na disputa, os dois passaram a buscar diretamente os eleitores que haviam escolhido outras candidaturas no primeiro turno. Flávio mudou o discurso sobre o Bolsa Família.

Depois de ter chamado o programa de “bolsa-farelo” em publicações antigas, passou a defender sua manutenção e afirmou que o benefício era um “direito adquirido” dos brasileiros. O candidato também mudou de posição sobre o fim da escala 6x1 e votou no Senado a favor da proposta. Lula também alterou posições.

O presidente, que historicamente havia se manifestado contra a redução da maioridade penal, passou a defender no segundo turno que adolescentes a partir de 16 anos respondam criminalmente em casos de crimes hediondos, como homicídio qualificado, latrocínio e estupro. O governo Lula também recuou na cobrança do imposto federal sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”. A cobrança havia sido defendida anteriormente como forma de proteger a indústria nacional.

As campanhas também fizeram ajustes na estratégia. Na preparação para o último debate, por exemplo, Flávio foi orientado a reduzir os confrontos diretos e apresentar mais propostas. Lula recebeu recomendações para evitar provocações, reduzir improvisos e administrar melhor o tempo das respostas.

6- Mobilização nas ruas e nas redes Depois do primeiro turno, as duas campanhas organizaram ações para tentar conquistar votos, reduzir a abstenção e mobilizar apoiadores dentro e fora das redes sociais. A estratégia digital ganhou força. A campanha petista montou uma sala em seu QG em Brasília para reunir influenciadores e jovens políticos eleitos e coordenar ações nas redes.

Do lado de Flávio, aliados organizaram uma reação digital e convocaram apoiadores para ampliar o alcance de conteúdos favoráveis ao candidato. A mobilização virtual também buscava produzir efeitos fora das redes. Nos canais de WhatsApp, apoiadores recebiam “missões” que incluíam compartilhar conteúdos, ampliar os canais e conversar com eleitores.

A “Tropa do Flávio” orientava seguidores a pedir votos e divulgar conteúdos, além de atrair indecisos. O canal também foi divulgado nas redes oficiais de Flávio e de aliados, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), distribuía tarefas para ampliar o canal, compartilhar vídeos do presidente e atrair eleitores.

Os dois canais ganharam milhões de seguidores ao longo do segundo turno. Em 21 de outubro, o “Exército do Lula” tinha quase 8 milhões de seguidores, e a “Tropa do Flávio”, 2,7 milhões. A mobilização acabou desembocando também na Justiça Eleitoral.

A campanha de Flávio levou o “Exército do Lula” ao TSE e pediu a suspensão do canal sob a alegação de que divulgava informações falsas. O presidente do tribunal, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão, mas o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a ordem. Uma análise técnica do TSE não identificou conteúdos falsos entre as publicações examinadas que estavam disponíveis.

Depois, Nunes Marques condicionou o funcionamento do canal ao registro na Justiça Eleitoral. A campanha de Lula registrou a ferramenta. A defesa afirmou, porém, que fez o registro para cumprir a determinação do ministro e que isso não significava que a campanha assumisse a administração do canal.

A campanha de Flávio também complementou seus dados na Justiça Eleitoral para informar individualmente o canal “Tropa do Flávio”, que ainda não constava dessa forma no registro. Em 15 de outubro, o plenário do TSE decidiu por unanimidade que canais registrados entre o primeiro e o segundo turnos poderiam ser usados imediatamente. Com isso, o tribunal retirou a exigência anterior de esperar 48 horas depois do registro.

A disputa continuou na reta final. A campanha de Flávio voltou a questionar o “Exército do Lula” e pediu esclarecimentos à Meta sobre uma suposta atuação coordenada dos participantes. Em 22 de outubro, Nunes Marques determinou que a empresa apresentasse dados técnicos sobre o canal.

No dia seguinte, Mendonça manteve a decisão e afirmou que a Justiça Eleitoral não tinha a função de fiscalizar “desafios” lançados pelos candidatos em debates. 7- Plataformas digitais e Justiça Eleitoral As plataformas digitais também foram alvo de questionamentos das duas campanhas no segundo turno. Lula e Flávio acionaram a Justiça Eleitoral sob o argumento de que seus conteúdos eram prejudicados nas plataformas da Meta, dona do WhatsApp, Facebook e Instagram.

A campanha de Lula também questionou no TSE o funcionamento da inteligência artificial da Meta depois que usuários relataram que a ferramenta se recusava a criar imagens de campanha com o nome de Lula e o número 13, mas aceitava pedidos semelhantes envolvendo Flávio e o número 22. O g1 confirmou diferença nas respostas da ferramenta, embora a IA também tenha produzido uma imagem com o nome de Lula após várias tentativas.

A Meta informou que trabalhava para aperfeiçoar os filtros e posteriormente bloqueou temporariamente a geração de imagens dos dois candidatos. Em outro processo, o TSE determinou que a empresa comprovasse medidas adotadas para garantir tratamento igualitário às campanhas na distribuição de conteúdos políticos e anúncios eleitorais. A decisão também cobrou informações sobre sistemas de recomendação, anúncios, possíveis perfis inautênticos e conteúdos produzidos ou alterados artificialmente.

Os casos envolvendo as plataformas se somaram a uma judicialização que atravessou toda a campanha, envolvendo temas como propaganda eleitoral, inteligência artificial, canais digitais e atuação das plataformas. 8- Debates, acusações e disputa pelos sigilos Lula e Flávio Bolsonaro participaram de dois debates no segundo turno.

No primeiro, realizado pela Band em 18 de outubro, discutiram segurança pública, economia, saúde, relações com os Estados Unidos e maioridade penal, além de trocarem acusações sobre investigações envolvendo aliados e familiares. Foi nesse confronto que Lula propôs que os dois abrissem os sigilos bancários e telefônicos.

Dois dias depois, o presidente protocolou documentos no TSE e no STF em que autorizava a divulgação de seus dados bancários, fiscais e eletrônicos dos oito anos anteriores e os de familiares, desde que Flávio fizesse o mesmo. Flávio respondeu com uma contraproposta e afirmou que aceitava abrir seus sigilos dos 20 anos anteriores, além de dados de familiares e empresas de sua propriedade, mas apresentou novas condições para Lula. As duas candidaturas continuaram apresentando manifestações à Justiça Eleitoral.

Em 22 de outubro, o ministro André Mendonça afirmou que não cabia ao TSE definir quais informações os candidatos deveriam divulgar e que ambos poderiam tornar seus próprios dados públicos voluntariamente. A campanha de Lula recorreu e pediu que o tribunal atuasse como intermediário para garantir a divulgação simultânea e integral das informações.

No dia seguinte, a Meta informou ao TSE que não havia identificado violação de suas políticas e afirmou que mobilização política lícita não configura comportamento coordenado proibido por suas regras. No último debate antes do segundo turno, realizado pela TV Globo em 23 de outubro, Lula e Flávio discutiram temas como dívidas dos brasileiros, salário mínimo e SUS e também trocaram ataques pessoais. Nas considerações finais, fizeram os últimos apelos aos eleitores antes da votação.