Trabalho de intérpretes de Libras ampliam acesso de eleitores surdos no Acre 🗳 Em período eleitoral, conhecer propostas, acompanhar debates e entender os posicionamentos apresentados pelos candidatos são etapas importantes para que o eleitor possa formar a própria opinião. Para as pessoas surdas, no entanto, esse acesso depende também de uma comunicação que respeite as especificidades da Língua Brasileira de Sinais (Libras). 🤘 Nesse contexto, tem-se a atuação do tradutor e intérprete de Libras.
Uma dessas profissionais da área é Giovanna Nascimento, que trabalha como professora de Libras no Centro de Estudo de Línguas (CEL) e como tradutora e intérprete na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), em Rio Branco. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 AC no WhatsApp ℹ️ Na última sexta-feira (26), foi celebrado o Dia Nacional do Surdo.
A data tem como objetivo relembrar a fundação do Instituto Nacional de Educação de Surdos, primeira escola para surdos do Brasil, e integra a campanha Setembro Azul, mês dedicado a ações de conscientização, visibilidade e luta da comunidade surda. Além disso, no dia 23 deste mês foi comemorado o Dia Internacional das Línguas Gestuais com o objetivo de promover a inclusão e proteger a identidade linguística das pessoas surdas.
Giovanna contou ao g1 que trabalhar como intérprete envolve mais do que simplesmente reproduzir sinais. Segundo ela, por trás de alguns minutos de interpretação existem anos de estudo, formação, cursos, aperfeiçoamento, prática, experiência e convivência com a comunidade surda. “Dedico-me integralmente à Libras e compreendo a responsabilidade que existe quando assumimos o compromisso de tornar uma informação linguísticamente acessível”, afirmou.
Trabalho de intérpretes de Libras ampliam acesso de eleitores surdos no Acre Arquivo pessoal LEIA TAMBÉM: Durante gravidez, intérprete de Libras viraliza ao acompanhar ensaio de juninas no Acre: 'Faço com amor' Professor surdo é o 1º a defender dissertação de mestrado em libras traduzida em português no AC: 'quebra de paradigmas' Acadêmica e professora gravam vídeo ensinando nome de cidades do AC em libras A intérprete destacou que atua na área há aproximadamente dez anos e que, durante os períodos eleitorais, aumenta a procura por profissionais de Libras para trabalhos relacionados à comunicação política.
De acordo com ela, a atuação exige conhecimento técnico para acompanhar discursos, propostas e diferentes contextos de comunicação. “O intérprete de Libras no período eleitoral desempenha, portanto, uma função de grande responsabilidade. Ele possibilita que conteúdos políticos e eleitorais sejam linguisticamente acessíveis ao público surdo usuário da Libras”, explicou.
📆 As eleições estão marcadas para o dia 4 de outubro, com eventual segundo turno no dia 25 do mesmo mês, em cidades com mais de 200 mil eleitores registrados. Neste ano, os acreanos irão às urnas escolher presidente da República, governadores, deputados federais, estaduais e senadores. Confira a página de eleições no g1 Acre.
Profissionalização Para Giovanna, conhecer alguns sinais não significa estar preparado para atuar como intérprete. A profissional destaca que a Libras possui estrutura própria e que a interpretação exige domínio linguístico e compreensão dos aspectos culturais e discursivos envolvidos na comunicação. “Libras é uma língua com estrutura gramatical própria.
Possui aspectos linguísticos, culturais e discursivos que precisam ser respeitados. Ter conhecimentos básicos de Libras é extremamente positivo e deve ser incentivado, sobretudo em espaços de atendimento ao público, mas isso não substitui a atuação de um profissional qualificado quando existe necessidade de interpretação”, detalhou.
Giovanna Nascimento trabalha como professora de Libras no Centro de Estudo de Línguas e como tradutora e intérprete na Assembleia Legislativa do Acre, em Rio Branco Arquivo Pessoal A diferença, segundo ela, também se aplica ao dia da votação. A intérprete avalia que a presença de uma pessoa com conhecimentos básicos de Libras pode ajudar no acolhimento inicial, mas não garante, necessariamente, que o eleitor surdo consiga compreender informações mais complexas. “A pessoa surda não precisa apenas ser recebida.
Ela precisa ter condições de compreender e ser compreendida, com autonomia, segurança e dignidade”, destacou. Responsabilidade Além da atuação nos períodos eleitorais, Giovanna defende que o trabalho do intérprete seja compreendido como uma atividade profissional especializada. Para ela, a acessibilidade precisa ser planejada considerando a necessidade de profissionais qualificados e as condições adequadas para a execução do serviço.
Giovanna também destaca que a formação continua mesmo depois de anos de experiência. Graduada em Ciências Biológicas e em Letras Libras, ela possui especializações em diferentes áreas e, atualmente, é mestranda em Educação. De acordo com ela, a busca por aperfeiçoamento é constante.
“Depois de aproximadamente dez anos de atuação, continuo estudando, realizando cursos e buscando aperfeiçoamento porque compreendo que carregar uma língua nas mãos significa também carregar uma enorme responsabilidade”, disse. Intérprete atua na área há aproximadamente dez anos e afirma que, durante os períodos eleitorais, aumenta a procura por profissionais de Libras Arquivo pessoal A profissional compartilha ainda que sua relação com a linguagem de sinais está ligada a sua trajetória de vida pessoal e familiar.
“Quando olho para minhas mãos sinalizando, não vejo apenas as minhas mãos. Vejo as mãos dos meus pais, dos meus professores, das pessoas surdas que compartilharam comigo sua língua e sua cultura e de todos aqueles que fizeram parte da minha trajetória”, relatou. Segundo Giovanna, garantir a presença de profissionais qualificados significa possibilitar que a informação chegue ao público surdo sem que outra pessoa precise decidir por ele o que deve compreender.
“Foi aprendendo para ajudar o outro que encontrei uma profissão e um propósito para aquilo que faço”, afirmou. Giovanna é graduada em Ciências Biológicas e em Letras Libras e atualmente é mestranda em Educação Arquivo pessoal Informação acessível e de qualidade A importância da acessibilidade está diretamente relacionada à autonomia do eleitor.
Para Aline Cristina Menezes Santos, professora de Libras no CEL e pessoa surda, ter acesso às informações apresentadas durante uma eleição significa ter a possibilidade de conhecer diretamente as propostas e os posicionamentos dos candidatos, sem depender da interpretação de terceiros.
“Ter a presença do intérprete de Libras nas propagandas e nos debates eleitorais é extremamente importante para mim enquanto pessoa surda, porque é por meio da acessibilidade que consigo compreender o que cada candidato está dizendo, conhecer suas propostas e, a partir dessas informações, construir a minha própria escolha”, pontuou. ⚠️Aline ressalta que, quando a comunicação não é acessível, a pessoa surda pode depender de outras pessoas para compreender o conteúdo político apresentado no período eleitoral.
“Eu não quero que alguém escolha ou interprete a política por mim. Quero ter acesso à informação para formar a minha própria opinião”, defendeu. Para a professora, a acessibilidade precisa considerar a qualidade da interpretação.
Segundo ela, a presença de uma janela de Libras não garante que todo o conteúdo tenha se tornado plenamente acessível. “Não basta simplesmente colocar uma janela de Libras na tela para considerar que a comunicação se tornou plenamente acessível. É necessário que exista qualidade linguística e que o profissional responsável pela interpretação possua competência e fluência para transmitir aquelas informações adequadamente”, afirmou.
Ter acesso às informações apresentadas durante uma eleição significa ter a possibilidade de conhecer diretamente as propostas e os posicionamentos dos candidatos Reprodução/TV Globo Para ela, o problema não está na surdez, mas nas barreiras que surgem quando informações importantes não estão disponíveis em uma língua que a pessoa consiga compreender. Segundo a professora, a dificuldade de encontrar conteúdos plenamente acessíveis ultrapassam o período eleitoral.
“As pessoas surdas também querem acompanhar as notícias, compreender o que acontece em sua cidade, em seu estado e no país, participar das discussões e construir suas próprias opiniões”, afirmou. Segundo Aline, a acessibilidade deve ser pensada como parte da comunicação desde o início. “Não queremos que outras pessoas nos contem aquilo que poderíamos conhecer diretamente.
Queremos acesso à informação. Queremos autonomia. Queremos ter o direito de compreender para, então, decidir por nós mesmos”, finalizou.
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