O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em depoimento prestado ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça que a delação premiada que pretendia fazer tinha como objetivo denunciar pessoas ligadas ao "núcleo do atual governo". O banqueiro, no entanto, não citou a possibilidade de contar sobre sua relação com demais autoridades políticas e a participação que teve no financiamento do filme "Dark Horse", cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo. E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar", disse. As informações foram reveladas pelo jornal o Estado de São Paulo e o blog teve acesso à íntegra do depoimento prestado por Daniel Vorcaro ao juiz do gabinete do ministro André Mendonça.

Mendonça confirma que tomou depoimento de Daniel Vorcaro na última semana de agosto Mendonça é relator do processo envolvendo o caso Master no STF. O depoimento foi prestado a um juiz auxiliar que acompanha o caso, do ministro após um pedido dos advogados do ex-dono do Banco Master. "O depoimento foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência.

Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar", diz o gabinete do ministro. 🔎 Vorcaro, dono do Banco Master, está preso em Brasília, acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que podem chegar a R$ 12 bilhões, segundo a PF. Nesta quarta-feira (2), a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu nesta quarta-feira (2) o arquivamento de denúncias feitas por Daniel Vorcaro e afirmou que o banqueiro não apresentou provas durante o depoimento.

"[...] constata-se que o declarante não noticiou fato concreto ou juridicamente delimitado capaz de impulsionar providências investigativas próprias, tampouco conferiu o mínimo elemento de verossimilhança às assertivas ali formuladas", diz a PGR. Sem apresentar provas, Vorcaro fez leituras pessoais e desconectadas do devido processo legal até mesmo de sua prisão. Ele disse que entendeu a prisão dele como uma intimidação.

No depoimento, Vorcaro ainda afirmou que teria desistido de seguir com a delação por se sentir ameaçado pelo que ele chamou de "pessoas do poder", que, segundo ele, o querem ver preso. Daniel Vorcaro ficará preso em cela de 6 m² de presídio de segurança máxima em Brasília Jornal Nacional/ Reprodução “Desde que eu fui preso... Na verdade, a minha prisão, no meu entendimento, ela já foi uma intimidação para que eu não externasse os fatos que eu desejava falar desde o começo dessa operação”.

Entretanto, a defesa do dono do Banco Master apresentou uma delação ao Ministério Público em 15 de junho deste ano, que foi rejeitada por não conter novos elementos suficientes sobre o caso para que o acordo fosse fechado. Essa interpretação foi feita por ele sem qualquer respaldo jurídico, sem apresentar provas e após ter delações negadas e ter a prisão confirmada por colegiado no Supremo.

Master e BRB No depoimento, o banqueiro defendeu ainda a venda do banco Master para o Banco Regional de Brasília (BRB) e afirmou que seria um negócio "benéfico". "[...] a própria fusão e negócio de com o BRB, que eu espero muito ter a oportunidade de falar o que efetivamente aconteceu e o tanto que seria benéfico se houvesse sido feita a fusão e a integração dos dois bancos. Mas eu tomei uma série de medidas tentando evitar que aquela profecia que me tinha sido feita se realizasse", disse Vorcaro.

Em abril deste ano, uma nova fase da operação Compliance Zero levou à prisão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. A PF afirma que ele teria permitido negócios com o Master sem lastro e sem seguir práticas adequadas de governança. O BRB estima que pelo menos R$ 8,8 bilhões dos créditos do Master comprados pelo BRB são títulos inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação.

Na prática, "crédito podre" que pode se transformar em um rombo no patrimônio do banco. O governo do Distrito Federal diz que consegue recuperar R$ 2,2 bilhões para cobrir parte desses títulos ruins com outras medidas – mas precisaria de um empréstimo para os outros R$ 6,6 bilhões.