O que é descartado pode virar alimento para o gado na seca O que antes era descartado nas lavouras de mandioca pode se tornar uma alternativa para alimentar rebanhos durante a seca em Mato Grosso.
Em parceria com a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) desenvolvem um estudo que utiliza a parte aérea da mandioca — o terço superior da planta geralmente descartado — como suplemento nutritivo, sustentável e de baixo custo para a alimentação dos animais, especialmente durante o período de estiagem no estado. 🔍 O calor intenso em Mato Grosso ocorre principalmente por causa do período de estiagem.
Nesta época, a quantidade de chuva diminui, o ar fica mais seco e há menos nuvens para bloquear a radiação solar. Com isso, o solo e o ambiente aquecem mais durante o dia, elevando as temperaturas e mantendo o tempo quente por vários dias. O estudo é desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Extensão em Forragicultura e Conservação de Forragens (GEFOR), vinculado à Faculdade de Agronomia e Zootecnia da UFMT, sob orientação do professor Dr.
Joadil Gonçalves de Abreu. Segundo ele, a proposta é oferecer uma alternativa nutritiva e de baixo custo para reduzir os impactos da escassez de pasto durante a seca, um dos principais desafios enfrentados pelos pecuaristas da região. A Empaer desenvolve pesquisas com mandioca desde 2012, buscando identificar cultivares mais adaptadas às diferentes regiões de Mato Grosso e aumentar a produtividade.
Além da pesquisa, a instituição trabalha para levar os resultados aos agricultores por meio de galhos do topo da mandioca, dias de campo, reuniões técnicas e orientações aos produtores. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Na UFMT, a pesquisa ainda está em fase inicial. Até o momento, foram analisadas algumas variedades de mandioca destinadas à indústria.
Ainda falta avaliar as variedades de mandioca de mesa. Após a conclusão das análises, os resultados poderão ser publicados e apresentados aos produtores, inclusive durante os dias de campo promovidos pela universidade. Mandioca de mesa é aquela produzida principalmente para o consumo humano, como a mandioca cozida ou usada em receitas.
Mandioca industrial é cultivada principalmente para a produção de farinha, fécula, amido e outros derivados. Variedades de mesa Empaer O poder nutritivo oculto na mandioca Tradicionalmente, a mandioca é cultivada visando a comercialização de suas raízes e o aproveitamento do caule grosso para novos plantios. As folhas e ramos do topo, no entanto, costumam ser deixados no campo.
A pesquisa do GEFOR, realizada em parceria com a Empaer — através da pesquisadora e engenheira agrônoma Dra. Dolorice Moreti —, identificou que esse material descartado é um verdadeiro "superalimento" para o gado. Em pleno período de estiagem, as pastagens convencionais sofrem uma queda drástica de qualidade, registrando cerca de 5% a 6% de proteína bruta.
Para não perder peso, um boi precisa de, no mínimo, 7%. "A parte aérea da mandioca, em nossos dados, superou os 15% de proteína bruta, chegando a mais de 20% em algumas cultivares específicas, é um alimento que, além de manter o animal, garante ganho de peso em plena seca" destacou o professor Joadil. Além da alta qualidade, a produtividade impressiona.
Em testes de campo, a cultura atingiu a marca de 28 toneladas de massa verde por hectare. Para efeito de comparação, híbridos de milho utilizados para silagem produzem cerca de 35 toneladas. A proximidade dos números surpreende os pesquisadores, visto que a mandioca sequer é uma cultura melhorada geneticamente para a produção de folhas, e sim de raízes.
"Quando comparamos a produção de massa verde, percebemos que a mandioca se aproxima da produtividade do milho para silagem, mas com uma grande vantagem: ela suporta muito melhor os períodos de estiagem", destaca Joadil. Validação genética em campo O trabalho na Empaer consiste em validar o comportamento desses materiais genéticos (provenientes da Embrapa, IAC e outros órgãos) nas diferentes regiões do estado.
No Campo Experimental de Tangará da Serra, a instituição mantém hoje um banco vivo impressionante: 70 materiais genéticos de mandioca de mesa (de polpa branca, amarela e rosada); 25 materiais genéticos de mandioca voltados para a indústria. Além do desenvolvimento de cultivares mais produtivas, as pesquisas também acompanham a evolução das tecnologias adotadas pelos agricultores.
Segundo a pesquisadora, nos últimos anos os produtores passaram a investir cada vez mais em análise de solo, correção da fertilidade, adubação e irrigação, práticas que potencializam o desempenho das variedades melhoradas. "Não avaliamos apenas produtividade. Observamos resistência a doenças, qualidade culinária, teor de amido, arquitetura da planta e adaptação às diferentes regiões do estado.
O objetivo é recomendar ao produtor materiais que realmente tragam retorno econômico", afirmou Dolorice. Antes de ser oferecida aos animais, a parte da mandioca que fica acima do solo precisa passar por um período de secagem. Segundo o professor Joadil, esse processo reduz a presença de uma substância natural da planta que pode liberar compostos tóxicos e causar problemas de saúde nos animais quando o material ainda está úmido.
"O único cuidado que a gente sempre ressalta é fazer a secagem. O produtor não pode picar e fornecer o material úmido para o animal, porque existe o risco de morte por asfixia devido à presença do ácido cianídrico. Depois que o material seca, esse composto volatiliza e o alimento pode ser utilizado com segurança", explica o professor.
A solução encontrada pelo grupo é simples, barata e eficiente: a produção de feno. Picagem: O material é triturado em pedaços de aproximadamente 2 centímetros. Secagem: O conteúdo é estendido sobre lonas plásticas ao sol e revirado a cada hora.
Como o ácido cianídrico é volátil, ele evapora completamente durante o processo. Teste do Sal: Para saber se está no ponto, os estudantes misturam o material com sal de cozinha; se o sal não grudar na planta, o feno está pronto e totalmente seguro para o consumo. A proporção média é de que uma tonelada de massa verde resulte em 200 a 300 kg de feno.
Essa quantidade é suficiente para alimentar até 25 animais adultos por um dia, considerando o consumo médio de 10 kg diários por cabeça. Além de servir para consumo próprio, o feno ensacado surge como uma nova fonte de renda para agricultores que não possuem rebanho, permitindo a comercialização do subproduto para criadores de bovinos, caprinos e ovinos da região. Etapa de secagem da mandioca antes do uso na alimentação animal.
Giovanna Baiocco/ g1 MT Formação de novos profissionais Para além dos laboratórios, o projeto cumpre um papel social e pedagógico fundamental. Os estudantes e bolsistas de iniciação tecnológica (PIBITI), João Henrique (7º período de Agronomia) e Camila Neves (9º período de Zootecnia), enfrentam a rotina pesada do campo na fazenda experimental da UFMT para fazer a pesquisa acontecer. "Na seca é muito complicado.
Teve momentos em que precisamos ir no final de semana para conseguir irrigar o campo experimental por conta da rotina cheia de aulas" [...] "Muitos produtores jogam isso fora por falta de informação. Passar esse conhecimento e ver que a prática resolve gargalos que a teoria sozinha não mostra é gratificante," relata João Henrique. Camila reforçou também o impacto econômico da alternativa sustentável.
"Muitos querem usar apenas o milho, que é caro. A mandioca é rústica, barata e exige pouca adubação. Essa vivência abre nossa cabeça para ajudar o pequeno produtor a crescer," acrescenta Camila.
Pesquisa segue em expansão Mesmo com os resultados promissores, Dolorice disse que o trabalho está apenas começando e que a pesquisa precisa ser permanente para acompanhar as demandas do setor. "A pesquisa precisa ser contínua e dinâmica, porque sempre surgem novos problemas e novas tecnologias que precisam ser avaliadas. Hoje em Tangará, temos cerca de 70 materiais genéticos de mandioca de mesa e outros 25 destinados à indústria.
Muitos já foram avaliados e outros ainda estão em fase de multiplicação. Precisamos garantir condições para continuar esse trabalho", ressaltou. Da mandioca descartada, uma nova alternativa para o gado.
🌱🐂 g1 MT Próximos passos A parceria entre UFMT e Empaer planeja realizar, no início do próximo ano agrícola, um Dia de Campo voltado aos produtores rurais de Santo Antônio de Leverger e região. Durante o evento, os alunos envolvidos na pesquisa, juntamente com o professor Joadil, irão apresentar as técnicas de aproveitamento da parte aérea da mandioca, a produção do feno e as novas cultivares avaliadas. A atividade também irá apresentar formas de utilização da planta e os resultados obtidos no estudo.
