Brasileiros traficados estão em Madagascar e não conseguem voltar ao Brasil Um grupo de 23 brasileiros está retido em Madagascar, país insular na costa sudeste da África, sem os passaportes e à espera de uma solução para voltar ao Brasil. Segundo a ONG The Exodus Road Brazil, eles foram atraídos por falsas promessas de emprego no exterior e acabaram envolvidos em uma rede de crimes cibernéticos.
Entre eles, estão duas moradoras de Uberaba, no Triângulo Mineiro, que viajaram com a promessa de trabalhar em um salão de beleza, segundo um irmão delas informou em entrevista à TV Integração. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Triângulo no WhatsApp “Uma das minhas irmãs é cabeleireira e recebeu uma proposta para trabalhar em um salão de beleza na Tailândia. A outra recebeu uma proposta para trabalhar como recepcionista.
Elas saíram do Brasil com essa promessa de trabalho no exterior”, relatou o irmão das duas uberabenses traficadas. O homem pediu para não ser identificado para proteger as irmãs. Ele contou ainda que a família questionou se a oferta era segura, mas elas não deram detalhes sobre a empresa ou o trabalho.
O irmão das vítimas já está em contato com o Itamaraty. O Ministério das Relações Exteriores informou ao g1 que presta a assistência consular cabível e mantém interlocução com as autoridades locais a respeito do caso. Leia a íntegra da nota no fim da reportagem.
Promessas de emprego são falsas, diz ONG Segundo Cintia Meirelles, especialista em assuntos humanitários e representante da The Exodus Road no Brasil, os brasileiros foram levados para o Camboja, país do sudeste asiático. De acordo com a ONG, enquanto eram mantidos pelo grupo criminoso, os brasileiros eram obrigados a aplicar golpes contra vítimas no Brasil. Já os moçambicanos tinham portugueses como alvo.
Os brasileiros eram obrigados a aplicar diferentes tipos de golpes virtuais, como falsas abordagens em nome da Polícia Federal e o chamado "golpe do amor", em que criminosos criam relacionamentos falsos para conseguir dinheiro das vítimas. Após quase cinco meses de exploração, os brasileiros foram levados pela polícia para Madagascar, no dia 19 de agosto, durante uma operação contra a rede de golpes formada por brasileiros e moçambicanos traficados.
Cintia ressaltou, porém, que não é possível afirmar que todos os 23 brasileiros sejam vítimas de tráfico de pessoas. "Cabe às autoridades brasileiras investigar individualmente a situação de cada integrante do grupo". Da promessa de emprego à exploração Segundo o irmão das vítimas, assim que chegaram ao destino, as duas mantinham contato frequente com a família e enviavam fotos em um hotel junto com outros brasileiros.
“Nós nos falávamos todos os dias por volta das 23h aqui no Brasil, ela me dizia que lá eram 6h e era o horário que começaria a trabalhar. Então achávamos que estava tudo bem”, relembrou o irmão. Com o passar do tempo, porém, a família começou a desconfiar da situação, principalmente porque as duas não conseguiam enviar dinheiro para casa, como haviam planejado.
“A justificativa delas era que a dívida que elas tinham era muito alta, mas que acreditavam que após pagarem a dívida seria só alegria”, afirmou. A família só descobriu que havia algo errado quando uma das mulheres conseguiu entrar em contato e contou que, na verdade, estava presa. “Foi então que, com muita vergonha, uma das minhas irmãs me contou que na verdade elas haviam sido traficadas e estavam sendo mantidas em cativeiro e sendo obrigadas a aplicar esses golpes virtuais.
Ela me disse ainda que a polícia havia descoberto o esquema, detido eles e levado para Madagascar na quarta-feira (19)”, relembrou. Ainda segundo o relato do irmão, todos os envolvidos tiveram os celulares apreendidos. Algumas das vítimas, porém, tinham dois aparelhos e conseguiram esconder um deles.
Assim, puderam se comunicar com a família e relatar o tráfico que haviam sofrido. De acordo com a The Exodus Road Brazil, após serem levados do Camboja para Madagascar, 14 brasileiros permaneceram detidos pela polícia por aproximadamente três dias, enquanto os demais ficaram cerca de cinco dias. Todos foram liberados até o sábado (22).
“Minhas irmãs relataram que durante o período de detenção, homens e mulheres foram mantidos em locais diferentes. Alguns brasileiros ficaram em um quarto pequeno, sem janelas, com alimentação precária e dificuldades para dormir”, contou o irmão das duas mulheres de Uberaba. Depois de serem libertados, os brasileiros ficaram sem os passaportes e seguiram para o aeroporto de Madagascar.
Ao tomar conhecimento da situação, a The Exodus Road Brazil orientou que eles permanecessem no local, diante do risco de serem perseguidos pela organização criminosa. Posteriormente, com o auxílio da ONG, os brasileiros foram acolhidos por uma organização local e levados para uma casa, onde permanecem hospedados. Missionários e entidades da região também fornecem alimentação e outros itens básicos enquanto são tomadas as providências para o retorno ao Brasil.
“Fomos informados que os passaportes deles só poderão ser devolvidos diante da compra da passagem para retornarem ao Brasil”, afirmou o irmão das vítimas de Uberaba. Brasileiros ficaram em aeroporto até serem acolhidos por organização em Madagascar Reprodução/The Exodus Road Brazil Família não tem recursos para arcar com a viagem de regresso A família agora tenta conseguir recursos para pagar as passagens de volta ao Brasil.
Segundo o irmão das duas moradoras de Uberaba, o último valor consultado era de aproximadamente R$ 5,5 mil por passagem até São Paulo, além do deslocamento posterior até Minas Gerais. Ele afirmou que a família não tem condições financeiras de arcar com os custos e que procura ajuda com instituições e outros órgãos da cidade.
O irmão também contou que entrou em contato diretamente com o Itamaraty e recebeu orientações sobre os documentos necessários para comprovar que as irmãs e a família não têm condições de pagar pelo retorno. Segundo a ONG, o principal neste momento é garantir a repatriação, a proteção e as condições básicas de subsistência dos brasileiros. Medo e preocupação da família O irmão das duas brasileiras disse que a família vive com medo desde que descobriu a situação.
Segundo ele, as irmãs estão com vergonha por terem sido enganadas e têm medo de não conseguir voltar para casa. A família também enfrenta o impacto emocional da possibilidade de uma nova perda. "Elas estão com muita vergonha, por terem sido enganadas, com muito medo, medo de não ver mais a família", afirmou.
A ONG defende que o governo brasileiro assegure proteção e assistência aos cidadãos até que seja possível viabilizar o retorno ao Brasil. Como a ONG descobriu o caso Segundo Cintia Meirelles, a The Exodus Road Brasil tomou conhecimento da situação por meio de denúncias recebidas nas páginas da organização nas redes sociais e pelo site oficial. A partir dessas denúncias, a ONG passou a acompanhar o caso e a informar as autoridades sobre a existência do complexo de golpes.
Para a organização, o caso expõe uma modalidade de tráfico de pessoas identificada em diferentes partes do mundo: o aliciamento de jovens para trabalhar em centrais de crimes cibernéticos. Segundo Cintia, situações semelhantes já foram identificadas em países do Sudeste Asiático, como Tailândia e Malásia, além de Dubai e, mais recentemente, em países africanos.
Promessas de emprego De acordo com a The Exodus Road Brazil, as vítimas têm entre 20 e 35 anos e costumam ser atraídas por propostas que envolvem salários altos, passagens aéreas, moradia e a promessa de uma vida melhor. Algumas propostas chegam por meio de pessoas conhecidas que já viajaram para trabalhar no exterior. De acordo com Cintia, a confiança é utilizada pelas redes criminosas para facilitar o aliciamento.
"É uma vulnerabilidade e um sonho. Sonho de ter uma vida melhor, sonho de comprar uma casa, sonho de viajar, sonho de ter um bom salário", explicou. O que diz o Itamaraty Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que, por meio da Embaixada do Brasil em Maputo, capital de Moçambique, responsável pelas relações com Madagascar, "vem prestando a assistência consular cabível aos nacionais e mantendo interlocução com as autoridades locais a respeito do caso".
O Itamaraty afirmou ainda que, por questões de privacidade, não fornece informações sobre casos individuais de assistência a cidadãos brasileiros. Sobre a repatriação, o ministério explicou que ela é um recurso excepcional e que, para ser realizada, é necessário que o interessado comprove situação de desvalimento e que seja verificada a impossibilidade de retorno por meios próprios ou com auxílio de familiares, amigos ou empregadores no exterior ou no Brasil.
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